Sou assim: sensibilidade em pessoa; sensibilidade em excesso.

Sou cheio de clichês. Entre os maiores são as desgastadas e poéticas frases “eu sou sentimental” e “eu sou sensível”, isoladas ou seguidas uma da outra. São frases que, rotineiramente, costumo exaltar com certo orgulho; apesar do medo que carrego comigo por dizê-las. Meu calcanhar de Aquiles — frágil — que eu tenho que aprender a conviver o protegendo. Conviver comigo é uma delícia, imagino, acho; aqui, não tem nada a ver com egocentrismo, mas sei o quanto posso ser dedicado quando gosto de alguém… e, as pessoas, de maneira geral, gostam de serem “cuidadas”.

Sou assim: sensibilidade em pessoa; sensibilidade em excesso. Não foi uma escolha de vida que escolhi viver. Um mantra dito e redito até ser verdade em mim. Sou feito de pequenas fragilidades que, a todo custo, tenta se proteger de virar estilhaços. O problema é que vivo me quebrando; vivo me refazendo de estilhaços de mim.

Adio minhas reorganizações internas para conhecê-las bem. Pessoas sensíveis têm um raro hábito de se entregarem por completo; de fazerem sala na própria dor, apreciando cada momento único mesmo não o sendo. Algumas pessoas falarão que isso é meio doentio. Mas, o que eles chamam de “meio doentio” é só um âmago estado de tristeza; e toda tristeza tem a sua beleza.

Pessoas sensíveis são amáveis a flor da pele, de atitudes afetuosas; finas feitas pétalas lindas; quebram-se, normalmente, fáceis demais. A sensibilidade me traz percepções delicadas do dia a dia. Costumo ter cuidado demais para não magoar quem eu amo, até permitindo-me doer no lugar delas, se necessário. Observo com carinho; percebo que algumas pessoas fazem quase o mesmo — a esmo — comigo. Costumo me doar mais do que doam-se para mim.

Viver com a emoção sempre ativa não é uma tarefa fácil, admito. Será, pensando longe, não seria melhor ser menos sensível por qualquer motivo? Talvez… Tudo me toca com tanta intensidade que é difícil não sê-lo. De vez em quando, me pego pensando nas pessoas — e nas situações — que passaram por minha vida e, quando se foram, imaginava que ali encontraria o meu fim; morrer de tristeza sempre foi tão poético que, admirava os poetas que assim partiram.

Ainda estou aqui — nesse mundo apático —, de peito exposto e coração sempre à vista dos meus olhos e de quem quiser vê-lo; nas minhas palavras então, nem se fala…

Passou o tempo que eu pensava que ser sensível era uma fraqueza genética, que nenhuma atividade exercida sete vezes por semana poderia fortalecê-la. A verdade é que ter esse sentimento como base requer muita coragem e destreza. Empunhar a bandeira da sensibilidade, em tempo integral, é aceitar constantemente ser contraposição do que afere o mundo lá fora. Ser sensível é enxergar além dos olhos, de ouvir o que ouvidos desatentos não ouvem. Sentir com mais gosto que o paladar poderia dar e, diante de tudo isso, sentir que o próprio coração anda tão vazio de novas sensações.

Esse meu jeito de depender do que acontece com tudo a minha volta é uma loucura incontrolável. Ser tão sensível é lindo, mas cada dia que passa percebo que preciso aceitar com mais facilidade que não tenho como controlar quem poderá me machucar de vez em quando, por qualquer palavra mais dura, por qualquer olhar mais invasivo, por qualquer rejeição voluntária ou não. E isso não pode simplesmente acabar com o meu dia, entretanto, às vezes, acaba.

Mesmo sabendo que ser assim é meio bobo, eu não escolheria ser diferente; ser insensível é estranho a quem sempre preferiu se entregar ao amor. Todas as emoções que vivemos são tão singulares que, não vivê-las, é deixar de experimentar a plenitude de cada dia, apesar de doer vez em quando.

Imagem de capa: Liderina, Shutterstock

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Luverlandio Silva
Nasceu no Piauí e cresceu em São Paulo, mora atualmente em Santo André – SP. Apaixonado pela área de exatas, mas tem o coração nas artes e escrita; trabalha e defende o meio ambiente e, as causas naturais: sentimentos; afetos; amor.

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