Por que “madrasta não”?

Nos últimos dias vivi uma experiência intensa: ser madrasta. Na minha família somos três irmãos: 2 mulheres e 1 homem, o caçula. Estranhamente, os três enveredaram por um formato familiar que não foram acostumados a ver – casamos com pessoas que têm filhos e nos tornamos os “steppais”, madrastas e padrasto. Na nossa família isso é incomum e não tínhamos muita experiência com este papel familiar. Cada um o exerce da maneira que julga correto, mas nós três, sem exceção alguma, desenvolvemos um amor, estranho amor e um senso de proteção, que ultrapassa as expectativas dos pais biológicos. Afinal, madrasta e padrasto são olhados de rabo de olho e levam torções de nariz apenas pela pronúncia da palavra. Esquecem-se, que a pessoa por trás daquele adjetivo é, antes de tudo e qualquer coisa, alguém com a própria história de vida, as próprias dores e os próprios traumas. É alguém que leva na face, a todo o tempo, as palavras: “Você sabia que eu tinha filhos!”. Mas, em momento algum, lembram-se de que: “Você sabia que eu não tinha filhos!”. O padrasto e a madrasta, muitas vezes, não têm filhos e estão aprendendo como lidar com uma criança que faz parte de suas vidas, de repente. Ou talvez tenham e tenham uma forma totalmente diferente de ver e criar crianças. Mas, acima de tudo, padrasto e madrasta são pessoas com vida própria e não meros coadjuvantes da vida de uma família desfeita por um divórcio; não são meros acessórios na vida de alguém.

Eu fui a última a me casar. Só conheci meu enteado após 3 meses de casada, quando ele veio passar as férias conosco. No dia em que ele chegou eram 2h da manhã, eu ouvi o pai abrindo a porta e saí do quarto para recebê-los e ele me lançou um olhar tímido de soslaio, por uns segundos. Porém, de súbito, veio até mim e me abraçou. Aliás, abraçou não, pendurou-se em meu pescoço, foi a primeira de todas as vezes daí em diante.

Ele surgiu na minha vida de um modo inesperado e até mesmo insistente. Eu relutava em me casar com um homem que tivesse filhos, porque eu, apesar de amar crianças, ainda não tenho filhos. O que se passou, desde que ele chegou, revirou meu mundo de cabeça para baixo, mudou meus conceitos e abalou meus sentimentos, como jamais eu havia vivido.

Madrasta é uma palavra que eu não aceito para mim, devido à dureza e carga histórica que esta palavra carrega nela. Antes de conviver com ele, eu ficava em dúvida, sobre como explicar quem eu sou ou como ele deveria me chamar; uma certeza eu tinha, madrasta não! A verdade foi que decidi dar a ele liberdade para me tratar como quisesse, desde que, não recorresse à palavra “tia” também. O tratamento tia me faz pensar em muitas coisas e nos nós que esta palavra pode dar na cabecinha da criança, quando mal usada, afinal tia é a irmã do pai e não a esposa. Tia não tem a mesma autoridade, a mesma responsabilidade, a depender do caso. Tia é tia. Mãe é mãe. E, eu? Bem, eu estava muito confusa ainda sobre quem eu era. Na verdade, foi ele quem me ensinou o meu papel. Após, muitas perguntas, muito diálogo entre nós e a explicação sobre algumas dessas palavras, ele me colocou em meu devido lugar, conforme o coração dele sentia. É um garoto deveras inteligente.

Então, elegemos a palavra “mãedrasta”. À qual, a própria mãe dele usa também ao se referir a mim. Posso dizer que esta foi uma das experiências mais completas que vivi na vida. Tudo na mão dele vira brinquedo; é criativo e inteligente demais para a idade; foi meu companheiro fiel de trabalho todos os dias, sem reclamar e sem malinar, sentadinho ao meu lado, enquanto me via resolvendo zilhões de problemas, acalmando gente estressada; inventa as desculpas mais esfarrapadas para se pendurar no meu pescoço e me encher de beijinhos; não come comida que preste, só gosta de porcaria, como toda criança e, por isso, travamos longas negociações, às quais ele costuma vencer; tira sangue sem chorar, coisa que muito homenzarrão não faz; é grato e demonstra com emoção e lágrimas tudo que faço por ele; pergunta se eu o amo a cada segundo; insiste em chamar de “mãe”, quando eu apenas sou grata por não ser chamada de “madrasta” (nome horrível); dorme no meio da cama, agarrado ao meu pescoço; trocamos altos papos, temos papo cabeça, conversas sobre besteira, ele me fala do mundo dele e eu do meu; não me deixa mais sair numa fotografia sozinha, a cabecinha dele está sempre lá num cantinho; quer a todo custo se assemelhar fisicamente a mim, procura no meu rosto semelhanças que apenas ele identifica; para defendê-lo eu uso as unhas e os dentes, se preciso for; a paciência se tornou meu maior atributo, mesmo quando às 3h da manhã ele não cala e incessantemente fica gastando a própria energia, pulando na cama, correndo pelo apartamento ou pedindo uma comida impossível para o horário; entende de coisas que estão muito além da idade dele; tem uma humildade invejável; colabora e coopera com a organização do lar. Se isso não é sentir como é ser mãe, eu não sei então como pode ser. Sei apenas que amo esse garoto, que não é meu; que ainda vai soltar um sonoro “você não é minha mãe” e que me fez entender que existe um amor diferente (e muito doido) que brota dentro da gente, quando a gente se casa com alguém que já vem com outro alguém. Eu digo a ele que ele foi meu bônus. Não no sentido de vantagem extra, mas, no sentido, de prêmio. Ele é um prêmio, lindo e cheio de vida, que deixa um buraquinho no meu coração quando não está por perto.

É estranho como alguém que não é nosso, que não saiu de nós, pode mexer tanto conosco e nos completar de certa forma. E nos mostrar esse amor maluco e diferente, que supera o que a gente pensava conhecer. E, à noite, você se flagra orando por ele, como se fosse seu e, até mesmo questionando a Deus, porque ele não é realmente seu, se o que você sente é que ele é seu. Você se flagra imaginando tudo de melhor para ele, estabelecendo planos e traçando um roteiro de vida para ele. É inacreditável quando você, que não é nada dele, estabelece uma regra e ele obedece sem pestanejar. Você, que tem a maior dificuldade em sair da cama pela manhã, aprende a levantar cedo porque ele tem que tomar café da manhã; aprende a se preocupar com a arrumação dele, ao invés da sua; gasta todo seu dinheiro numa porcariazinha que roda, chamada hand spinner, apenas para fazê-lo feliz; come os restos do prato dele, enquanto ele olha com cara de nojo, e a você parece a coisa mais natural do mundo.

Ele é muito criança ainda, eu sei… E muita água existe para rolar debaixo da ponte, mas esse menino roubou meu coração, tomou meu primeiro amor de mãe carinhosamente para si, por isso, madrasta não!

Imagem de capa: Nicoleta Ionescu/shutterstock

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS



Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here