Para meu benzinho que vai chegar

Não preciso de uma cobertura de frente pro mar, nem um carro novo todo ano na garagem. Menos ainda uma viagem por mês para a Europa ou, sei lá, uma coleção de brilhantes incalculavelmente caros.

Nada, mas nada disso faz sentido sem uma paixão do lado. Então, entre o luxo e o lixo, fico com o amor. Dinheiro pode tudo, é o que dizem por aí, porém, olha só, nunca haverá o bastante para comprar um benzinho.

Aquele amor que cobre os pés nas noites de inverno, que cuida nos dias de febre, que faz rir até doer a barriga. Aquele benzinho que alcança a toalha, que liga para saber se você comeu direito, se o dia está bom, se rola um jantarzinho romântico para burlar a rotina.

Uma paixão que tira o sono, que queima a pele, que provoca combustão no corpo todo. Aquele amor que arranca a roupa, que arrepia a pontinha esquerda da nuca. Não é qualquer benzinho, não é. Estou falando do apelido carinhoso, das flores no meio da tarde, do par ou ímpar para ver quem lava a louça.

Também estou falando da dor depois de uma briga, do arrependimento pelo que foi dito no calor do momento. Estou falando do ciúmes bobo daquela amiga ou do novo colega de trabalho. Estou falando da verdade por trás do pedido de desculpas e da reconciliação (que sempre acaba na paz de um beijo molhado).

É o amor que pulsa, que vibra no meio do peito e que derrete todo o lado esquerdo do mesmo. É o benzinho que faz você se emocionar, que segura sua mão naquele dia triste, que insiste naquele filme que já viram mais de dez vezes. A paixão que paralisa tem a mesma intensidade do carinho que nos impulsiona para frente.

É aquele abraço aconchegante, sem medida, sem hora para acabar. O amor que arde, mas não deixa marcas. Que ilumina, mas não cega os olhos. Que cresce, mas não aperta.

O amorzinho que quero para mim não tem extrato bancário, nem banco na Suíça, nem doutorado em Massachusetts. A paixão que procuro tem a simplicidade de uma cerquinha branca que enfeita a casa de campo. Tem a plenitude do que é valioso demais, mas nem todo dinheiro do mundo pode comprar.

Estou falando do amor sem preço, da florzinha roubada do jardim do vizinho para enfeitar o cabelo. Estou falando da paixão que me veste e que é grande o suficiente para ser dividida pro resto da vida.

Estou falando de um amor que vai chegar, que vai doar, que vai ficar. Um amor que se vê nos olhos, de vestido bonito, véu e grinalda, sem precisar de um altar. É o desejo que se conjuga de uma única forma: A M A R.

Imagem de capa: Tatiana Chekryzhova, Shutterstock

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Ju Farias

Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.

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