Os relacionamentos se desfazem porque a vida é um desembarque contínuo…

Por que os relacionamentos se desfazem? Não sei. Mas tenho cá muitas suposições que fazem todo o sentido para mim. Costumo dizer que “as diferenças fazem diferença”. Outro dia um amigo me disse que “esse negócio de que os opostos se atraem, ledo engano”. Eu disse para ele que a gente precisa de alguém que nos complete. Não um igual, nem um oposto, mas alguém que preencha nossas lacunas, pelo menos a maior parte delas.

Em minha “vasta” e breve experiência nos relacionamentos, fui percebendo que para duas pessoas caminharem juntas (em qualquer relação, não apenas as românticas), elas precisam ter objetivos em comum, para começar. Precisam querer chegar no mesmo lugar ou, pelo menos usar a mesma estrada na caminhada, mesmo que cada um tenha seu jeito próprio de seguir. Do contrário, as diferenças vão pesar, cedo ou tarde, e vão ruindo a relação. É a força do atrito, a corda pode ser forte e aguentar mais tempo, ou ser fina e romper com facilidade, mas cedo ou tarde, se houver atrito permanente, vai ruir. Não tem como evitar.

Não nos espantamos mais quando vemos relacionamentos que acabaram de começar, se desfazerem. Virou uma coisa rotineira e bastante comum. São as cordas finas. Mas todo mundo fica horrorizado com aquelas relações de muitos anos que “de repente” acabam. De repente? Pode ser para você que está do lado de fora, mas, para quem está vivendo a história como protagonista, conhece bem cada força de atrito que corroi dia após dia a relação.

É a divergência de opiniões, a falta de paciência, a ausência de empatia, o comodismo, a fatalidade da rotina, os sentimentos que não são mais demonstrados porque impomos demonstrações subentendidas, o desrespeito com o espaço alheio, o egoísmo, egocentrismo, carência, negligência com nossas próprias necessidades, doação desmedida, projeção no outro, expectativas irreais e o falso conceito de felicidade do mundo que acabam com as relações.

Você conversa com outras pessoas que contam as coisas boas que acontecem nas suas vidas (só as boas), como se acontecessem todos os dias. Olha as redes sociais alheias onde as pessoas estão maquiadas, apaixonadas, viajando, fazendo coisas legais juntas e imagina que sua vida está toda errada. Todo mundo está vivendo enquanto você está vendo os dias passarem sem fazer nada da sua vida! É que você não sabe mas, ninguém dá uma paradinha no meio da discussão para tirar uma selfie e postar dizendo “gente que briga todo dia”. Ou então tira uma foto deitado na cama, descabelado e com o pijama furado, abraçado na esposa desgrenhada e coloca na legenda “acordamos com bafo e de cara amassada”.

Vivemos em era de publicidade total. Tudo é marketing e falta mesmo é gente sendo de verdade. Só que gente de verdade funciona como repelente. Gente que fala do que sente e do que pensa, que defende seu espaço e não se refreia assusta o mundo maquiado. E gente de verdade não raro atrita com o mundo ao seu redor.

É por ser de verdade, então, que as relações acabam? Acho que não! Mas de repente, quando você cansa de representar e resolve se assumir, causa desconforto em si e em quem está ao seu redor. Porque você passa a desejar demais o seu mundo real, onde você possa ser você mesmo e fazer as coisas que quer e gosta, ser feliz e estar bem consigo, em selfies produzidas ou com o cabelo desgrenhado, que se dane, mas viver sua própria vida e se encontrar dentro das suas necessidades reais.

Quando você começa a ser de verdade, percebe que tem necessidades inadiáveis, que perdeu tempo demais sendo complacente com o mundo ao seu redor e que não sendo você, será sempre uma metade que não vai estar 100% em lugar nenhum. Aí bate o senso de urgência, a vontade de viver, de assumir as rédeas da vida, você vai colocando tudo na balança e é tomado de uma coragem incontrolável de ser de verdade.

Não, eu não acho que para ser de verdade a gente precise se separar, desfazer amizades. Acho que aquilo que é forte e verdadeiro sobrevive às tempestades das crises existenciais, porque os relacionamentos bem fundamentados têm, acima de tudo, amizade e respeito. Talvez a gente precise de um tempo para enxergar as coisas com mais clareza, tirar todo o entulho que permitirmos se alojar no caminho para ver nossa estrada mais nitidamente. Ou talvez possamos sentar com a pessoa ao nosso lado, colocar as cartas na mesa, falar exatamente do que sentimos, não sentimos, fingimos sentir, e estarmos dispostos a ouvir o outro lado da história, alinhar as coisas e seguir sem rompimento nenhum.

Por que os relacionamentos se desfazem? Porque a vida é, como canta lindamente Maria Rita, feita de encontros e despedidas. “O trem que chega é o mesmo trem da partida”. As pessoas sobem e descem do nosso trem da vida e cada uma delas deixa um pouco de si, mesmo aquelas que partem deixando a sensação de terem levado tudo o que temos. Existe um tempo determinado para cada pessoa que passa por nossa vida e cada pessoa pela vida de quem passamos. Tempo suficiente. E o tempo é aquilo que você conhece, não para, não espera e passa apressado. Quando você sente que chegou ao seu ponto final, quando alguém viajando conosco chega ao ponto final dela, é besteira esticar a viagem. Fica maçante, cansativo, você não presta mais atenção na paisagem, não aproveita mais nada.

Quanto tempo deve durar um relacionamento? Por que você não experimenta ser de verdade, respeitar as verdades de quem viaja com você, e segue o caminho aproveitando a paisagem, ao invés de se preocupar com o tempo, com as vírgulas e os pontos finais?

Imagem de capa: Peter Bernik, Shutterstock

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Luciana Marques
Leonina de coração eternamente apaixonado, dramatizo e poetizo a vida. Então às vezes, quando as palavras me sobram e os sentimentos transbordam... Escrevo!

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