O casamento se sustenta em propósito, não em amor.

Afirmar que o amor não sustenta o casamento é chocante, eu sei; e só compreende essa afirmação quem já viveu a experiência de casar.

Entendamos a palavra “propósito” aqui, como objetivo em comum a ser alcançado. Portanto, é simples notar que muitas pessoas se amam, mas não conseguem permanecer juntas. Elas apenas se amam. Contudo, o casamento exige uma coisa chamada propósito, é imperativo ter algum objetivo para se estar naquele relacionamento e, em especial, para permanecer. Não me entendam mal, não falo de interesse, falo de casamento com propósito e não casamento com volúpia. É lindo quando um casal se enlaça movido pelos braços tórridos da paixão, ocorre que a paixão é um sentimento passageiro, que, se não estiver agregado a outros sentimentos, está fadado a morrer, sufocar ou perder a graça. O casamento exige mais.

Vamos também tirar um pouco da aura do casamento santificado por instituições. Estou falando do relacionamento de unir tetos, contas, famílias, históricos familiares e medos. Isso é o casamento e não aquele papel bonitinho que nos dão no cartório. A verdade do casamento é muito mais visceral, que formal.

Se não há propósito, você não muda e, acredite, não existe casamento que não te mude. Assim como você não chega numa área nova no seu trabalho ditando suas regras e impondo seus modos, você também não faz isso em seu relacionamento. Quando namoramos ainda conseguimos nos manter intactos e só mudar o que queremos, mas para permanecer casado é preciso mudar e mudar muitas coisas, inclusive, aquilo que você não quer mudar. Para muitos de nós, felizmente, é necessário mudar, afinal, precisamos ter uma existência dinâmica. Para outros, é na base do infelizmente mesmo. Seja como for, quem não se propõe à mudança pode esquecer a vida de casado.

E sei que muitos torcem o nariz para essa afirmação da mudança necessária, dizem: “quem quiser ficar comigo tem que me aguentar do jeito que eu sou”. Não é à toa que permanecem solteiros. Ninguém em sã consciência aborda as demais relações sociais impondo a si mesmo, seja no trabalho, na escola, na família ou no grupo da igreja. Você não chega lá ditando suas regras, você se adapta, negocia, reclama, mas você não põe o mundo ao seu redor na sua ordem, você se ajusta a ele.

O casamento é uma proposta de viver junto com alguém diferente de você, de passar a maior parte do seu tempo dividindo sua vida com alguém que vem de outros costumes, que possui outros hábitos e valoriza outras coisas. Eu sei que você quer alguém que se enquadre no seu plano, no seu estereótipo de cônjuge ideal, mas esse é o caminho mais fácil para permanecer sozinho. A verdade é que não existe tal pessoa. Existem pessoas que se aproximam do que buscamos e que são cheias de defeitos, como nós. Eu sempre disse: “escolha alguém que tenha defeitos que você possa suportar.”.

Parece uma visão aborrecidamente sintética e racional; e é. Definir os pilares da sua união pode determinar a duração dela. Se você casou porque fulano é bonito, ou porque já namorava há uns 10 anos, ou porque cansou de ficar sozinho; está na hora de alterar os pilares da sua união, uma vez que nenhum desses motivos pode gerar uma relação sadia e duradoura.

O casamento exige ajustes de personalidade, correção de uns defeitos e aceitação de outros. Muitas vezes o problema de um casal não é a toalha jogada no chão. Certamente, não foi o controle da TV que ocasionou o divórcio. Por trás de todas essas questões se escondem sentimentos estranhos: egoísmo, revanchismo, vingança, competição, ciúmes, avareza etc.

Entrar num casamento sem conhecer o outro não é problema, porque no casamento pouca coisa fica encoberta; porém, entrar sem conhecer a si próprio é um grande problema. De repente, você vê surgir em você algo que você nunca achou que fosse e esse é um choque.

Mesmo havendo amor, a luta pela adaptação faz muitos casais se separarem; assim como, une outros. A diferença deles está no propósito, no querer permanecer junto por ter algo além do sentimento que os sustenta, por ter um plano de vida, um objetivo em comum a ser alcançado. Casal sem objetivo é casal vazio. A união pode durar alguns anos, mas o futuro é a separação. Se você escolhe alguém para caminhar ao seu lado, mas não há propósito em estar com esse alguém, o que vai te fazer permanecer quando os problemas forem surgindo?

Antes de casar, toda pessoa deveria se fazer a seguinte pergunta: o que eu pretendo com este relacionamento? A resposta vai definir o futuro dessa união. E, aos já casados, deixo a reflexão: qual é o seu propósito?

Imagem de capa: Sobokar, Shutterstock

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Rândyna da Cunha

Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367

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