Eu quero! A história de uma mulher que fez a vida acontecer.

Mas que pessoa decidida era aquela? Puxou o banquinho, se ajeitou, cruzou os braços sobre a mesa, sorriu e começou a falar. Os olhos dela brilharam com a ideia de contar aquela história (aquelas histórias). Para compartilhar com você, não tem outro jeito que não seja eu tentar reproduzir a história, rezando para fazer jus e empregar a entonação correta nesses momentos tão bem vividos.

Vou pular os detalhes iniciais e levar você para um hotel no Rio de Janeiro, onde em alta temporada trabalhava uma moça do interior, fluente em inglês, que atuava como intérprete para auxiliar turistas estrangeiros. Cabelos pretos, pele branca, jovem, decidida e independente.

Recostado no balcão a observava, de longe, um turista alemão aparentemente bem mais velho e com certeza plenamente encantado com a beleza daquela moça brasileira, o que ficou muito claro nos dias subsequentes, quando ele convencia a camareira a deixá-lo entrar no quarto da brasileira (quando ela saía), e enchia o quarto de presentes e pequenas surpresas, no intuito de envolvê-la. Deu certo, se você quer saber.

Depois do desinteresse inicial dela por aquele homem velho, alemão, que em nada se parecia com ela, ela aceitou o convite dele para passarem um dia “de turista” pelo Rio de Janeiro e foram fazer uma caminhada mal calculada pela Floresta da Tijuca. Perderam-se no horário e na trilha e ficaram lá dentro a noite toda, até o parque abrir.

Exaustos, com fome, com sono e ela, com raiva, pegaram um ônibus de volta ao hotel. Ela, embora trabalhasse no Rio de Janeiro em alta temporada, não sabia andar por ali e se deixou guiar pelo turista alemão (probabilidade de dar errado de 100%).

Embarcaram no ônibus errado e acabaram com o último dinheiro brasileiro que ele tinha. Voltaram a pé para o hotel em uma caminhada exaustiva. Na tentativa de não perder a chance de ter aquela mulher, ele a convidou para almoçar. “Eu estava morrendo de fome, claro que aceitei, ele pediu os melhores pratos do restaurante, frutos do mar, um monte de coisas. Na hora de pagar, bateu a mão no bolso e disse que tinha esquecido a carteira no hotel. Eu olhei pra ele e falei: – Você está de brincadeira com a minha cara, né?”.

Não acaba aqui essa relação trágica e cômica. Embora ele tivesse causado uma péssima impressão, foi persistente o bastante e toda aquela confusão acabou fazendo com que ela se afeiçoasse por aquele homem determinado e interessante. Fez uma análise fria daquele “gringo” de porte grande, bonito e decidiu que teria um filho dele, uma produção independente! Ele logo iria embora e jamais saberia que deixou um filho no Brasil. Era perfeito para ela que queria ser mãe, mas não queria ser esposa de ninguém.

Ela conseguiu? Bem, a temporada acabou e ele foi embora deixando com ela um número de telefone, um endereço para correspondência e… Um filho! Embora ele não fizesse a mais remota ideia dessa última “recordação” e, ela não fizesse a menor questão de contar.

Ela não falava alemão, ele não falava português e ela não queria levar uma relação adiante. Mantiveram contato por meio de um intérprete brasileiro que traduzia as correspondências entres eles, mas ela nunca revelou que esperava um filho dele. Mandava as cartas para o intérprete que traduzia e enviava para ele e vice-versa.

No sétimo mês da gestação, uma amiga que não concordava com o fato de ela omitir o filho para o pai, mesmo que ele não quisesse assumir, armou um plano e a colocou no telefone com o alemão que entendendo muito pouco, mas o suficiente para compreender “é, um filho seu”, se surpreendeu com a paternidade a caminho.

Dias depois ela recebeu em casa uma correspondência com passagens de ida e volta para a Alemanha e uma carta que dizia mais ou menos assim:

“Venha viver comigo. Quero ter essa família com você. Aqui estão suas passagens, se você não for feliz aqui, pode voltar quando quiser.”

Ela foi? Foi, sim! Construíram uma família, tiveram outro filho e ela viveu ali com aquele homem que aprendeu a amar por cinco anos, até que… As diferenças fizeram diferença. A liberdade entre homem e mulher, o nudismo natural, o ciúme dela em ver seu homem beijando na boca de outras mulheres e conversando, nu, com outras mulheres (o que é natural na Alemanha), entre outras coisas, não permitiu que ela se adaptasse e o sofrimento superou a vontade de permanecer ali. Não era daquele jeito que ela queria viver e ele não sabia viver de outra forma. Então ela decidiu voltar para o Brasil e ele decidiu respeitar e honrar com o “você pode voltar quando quiser”.

Por todos os anos seguintes e enquanto os filhos precisaram, eles mantiveram contato e ela retornou para a Alemanha para visitá-lo e levar os filhos algumas vezes. O intérprete brasileiro fez a ponte entre eles por um tempo, depois conseguiram fazer isso sozinhos. Muitos anos se passaram, preservando a boa relação e uma história bonita entre os dois de amor e sobriedade.

Sentada ali na minha frente, quase 30 anos depois, ela terminava de me contar essa história e eu pensava: “Caramba, que mulher corajosa, resolveu engravidar de um cara que nunca mais veria, depois decidiu ir para um país totalmente diferente para viver com ele. Isso sim que é determinação”. Enquanto eu pensava nessas coisas ela falou:

– Aí… (e sorriu) Um belo dia, não sei como, o intérprete me achou e voltamos a conversar. Ele disse que sempre me admirou e perguntou se eu não queria namorar com ele.

Eu sei que meus olhos arregalaram e eu abri um sorrisão enquanto esperava por mais. Será que eu estava assistindo um filme? Será que estava lendo um daqueles romances tipo Julia, Sabrina, sabe? Mas dei uma olhadinha para os lados e observei o movimento… Era real mesmo. Então ela continou…

– Eu falei que nunca ia dar certo, fazia tantos anos que não nos falávamos e a gente ficou amigo nesse meio tempo, imagine, de jeito nenhum!

Mas eu vou contar para você… Até aquele dia em que ela estava ali sentada naquele banquinho bem na minha frente, estava dando muito certo e ela estava feliz. Muito feliz. Aceitou a investida do intérprete e me disse que ele a completava em todos os sentidos. E se não me falha a memória, ele está hoje com 70 anos!

Mas a história vivida com o intérprete ela guardou pra ela, me disse que essa era uma história que ela mesma contaria em breve, em um livro que estava escrevendo.

E então, ela se foi… Lembro-me de vê-la se afastando e pensar em gritar e perguntar: – Ei, você é de verdade? Mesmo? (risos). Antes de ir ela ainda apontou na direção de uns estandes acima do local onde eu estava e disse: – Meu filho está aí. O loiro mais bonito que você ver lá em cima, é o meu filho, esse da história.

É claro que eu precisei ir ao banheiro e observar os loiros no caminho… Acho que achei o filho dela, rsrs.

Não sei quantos anos ela tinha. Aparentava uns 40 e tantos, mas pela soma das idades e anos que ela relatou, suponho que passasse dos 50. Os cabelos ainda pretos, o corpo bem cuidado, o sorriso no rosto e os olhos de quem viveu muito até ali. De quem não tinha medo da vida, nem de tentar ser feliz, todos os dias.

Sem se importar se as pessoas a criticariam por ser mãe solteira, grávida de um homem que talvez nunca mais visse. Sem se importar em largar toda a sua estabilidade e segurança e entrar em um avião com um bebê para viver em um país desconhecido. Com coragem para viver um amor no escuro. Com determinação para virar as costas quando sentiu que não dava mais, mesmo levando dois filhos para longe do pai. Com garra para criar os filhos sozinha. Com o espírito jovem o suficiente para começar uma nova história de amor.

É… Acho que isso é que viver… Acho que ela é que é feliz…

p.s.: Essa história faz parte do projeto Zen Pelo Bem, onde tive o privilégio e a honra de escutar histórias reais de amor e outras coisas.

Imagem de capa: Maxplay photographer, Shutterstock

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Luciana Marques
Leonina de coração eternamente apaixonado, dramatizo e poetizo a vida. Então às vezes, quando as palavras me sobram e os sentimentos transbordam... Escrevo!

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