E se você desligasse o celular?

Tem um tempo, assisti um episódio de CSI onde a moça morreu em casa e levaram dias para descobrir, porque ninguém sequer a conhecia no mundo real e fora das paredes de sua casa. Tudo o que ela fazia, incluindo suas compras, era online e por aplicativos. Todo o seu vasto e infinito mundo se concentrava atrás das telas, plugado em alguma fibra ótica que a transportava para onde quer que quisesse ir, longe do calor humano.

Estava pensando cá com meus botões e lembrei desse episódio. Não te faz pensar, não? O que acontecerá ao meu mundo real, se me desconectar do virtual? Eu tenho uma vida lá fora?

Bem… Eu tenho. Mas também me dei conta de que tenho vida demais por trás dos teclados e mais contato com estranhos conhecidos do que com gente do meu mundo físico. E o que talvez seja ainda mais triste, tenho acompanhado a vida das pessoas do meu mundo físico muito mais pelas telas do que em tempo e sensações reais.

É por aqui que eu sei de namoros, términos, casamentos, nascimentos, batizados, falecimentos e expresso meus mais sinceros sentimentos em emotions milagrosos que me poupam abraços calorosos ou sorrisos amarelos.

Acho engraçado quando depois de um tempo sem interação virtual as pessoas te dizem “nossa, estava sumida hein”. Ou se por força dos déficits tecnológicos ou psicológicos eu ficar sem um meio de contato virtual, ser como se tivesse feito uma viagem ao Nepal.

Eu sumi? Não. Continuo trabalhando no mesmo lugar, morando na mesma casa, tendo os mesmos hábitos, indo ao mesmo supermercado e farmácia e comendo aquele mesmo pastel. Ah é, endereço residencial… O que é isso mesmo? As pessoas ainda se visitam? Nos enterros, talvez…

E quando enfim quebramos o ciclo da ausência física… “Você tem Wi-Fi?” Perguntamos antes de pedir aquele copo d’água. Então, depois de uma longa e terrível hora de conversa olho no olho estamos checando nossos aparelhos, desconectados do mundo real, abrigados no mundo virtual.

E se você desligasse o celular?

Quem são essas pessoas com as quais nos emaranhamos dia e noite em reações e interações íntimas, com as quais gastamos mais horas que conosco? Quem são essas pessoas sobre as quais comentamos sobre o quanto admiramos e que influenciam nossas vidas?

Você fará falta se desligar o celular. Talvez muita falta para um seleto grupo de contatos meramente virtuais. E na sua ausência outros posts ganharão evidência, outras coisas interessantes irão povoar a timeline dos seus “amigos” em uma velocidade tal que, você não será esquecido, mas a barra de rolagem te levará para baixo e será obsoleto em alguns dias (ou horas). Simples assim.

Quem são nossos amigos virtuais, por quem desenvolvemos afeição e que nos fazem rir com seus comportamentos descontraídos e despertam nossa curiosidade com sua aparente inteligência e visão de mundo?

Eu vejo tantos perfis fakes, nomes fictícios, fotos excessivamente tratadas, um copiar/colar de grandes pensadores e tão pouco sobre cada um. Os fakes são para quê? Proteção da imagem? Da família? Acaso somos celebridades passíveis de assédio e paparazzis? Não somos todos pessoas comuns buscando um lugar ao sol? Eu sou!

Assisti em boa companhia um filme que recomendo muito: Ela. Em um mundo provavelmente espelho do nosso em poucos anos, as pessoas fazem tudo na dependência de sistemas operacionais. É um mar de pessoas caminhando sem interagir umas com as outras, todas conectadas ao seu mundo virtual. O protagonista se apaixona pelo seu sistema operacional que foi configurado com um perfil feminino e o que ele faz durante o filme é extremamente semelhante a vida de muitos que se prenderam a essa maldita e abençoada conexão.

Ele faz passeios sozinho ou com amigos reais (raramente) e compartilha o que vê e vive por vídeos e fotos com seu sistema operacional, como forma de inseri-la no contexto daquela realidade. Ele come falando com ela pelo fone e dorme fazendo a mesma coisa. Ele tem orgasmos narrados e faz amor como quem está lendo um conto erótico detalhado.

Ele se transporta ao mundo virtual para ter uma vida real.

Achou alguma semelhança?

Não te contei nada sobre o filme, vá assistir, vai valer a pena. ELA 😉

O que acontece se você desligar o celular? Quem vai bater na sua porta, mandar uma carta, ligar no seu trabalho para saber se está bem e dizer que sente saudades? Mandar um e-mail, talvez, já que essa prática está entrando para a lista das coisas antiquadas.

Nós sequer sabemos os telefones das pessoas de cor. Não sabemos nada sobre a vida delas exceto as conclusões que tiramos de suas postagens elaboradas ou improvisadas. Não fazemos ideia de qual seja seu e-mail ou do que ela faz quando o online some da tela.

Que cheiro elas tem? Que altura? Como é o toque da sua mão? Como será a expressão real do seu rosto (não aquela congelada para a foto), quando ela materializa aquele hahaha ou kkkkk ou rsrs? Como será sua expressão real de timidez, raiva, tristeza, choro, amor, tão facilmente expresso por emotions?

Alguns cruzaram a fronteira do real e virtual. Tem relato de todo tipo e muito sobre fracasso. “Conheceu pela internet? E achou que ia dar certo?” Falam os experts em relacionamento! Pode dar certo, viu?! Procura no Google, tem bastante história pra te animar.

Acho que dá errado porque recebemos projeções de quem as pessoas querem ser e fazemos a mesma coisa. Um baile de máscaras é o que é o mundo virtual. Acredite (e eu sei que você sabe), ninguém é tão lindo, tão feliz, tão legal, tão otimista, tão namaste, tão amém, tão gratidão. Não existe uma criatura (real) que vire pra Shiva todo dia e poste isso numa roupa linda e leve de linho contrastando com o pôr-do-sol.

Baile de máscaras. Projeções! Mundo da fantasia, mundo de uma pseudo liberdade onde você vai me dizer que com você não, você é de verdade, sincero (a), mas só usa um apelido, um perfil fake, trata a foto antes de postar porque… Por que mesmo?

E olha… Não estou me excluindo, não. Exceto pelo perfil fake, eu recorro no mesmo que a maioria. Criei dentro dessa tela um mundo paralelo muitas vezes mais habitado por mim do que meu mundo real.

Me dei conta disso há muito tempo e venho tentando ser menos virtual desde então. Estou longe de conseguir! Mas a realidade me sacudiu mesmo outro dia, em um sábado a noite quando fiquei eu, a garrafa de vinho, o colchão na sala e a Netflix batendo um papo. Não tinha ninguém para bater na minha porta. As pessoas do meu mundo, aquelas cinco que dizem que influenciam em quem somos, estavam presas nos teclados junto comigo.

O que aconteceria se eu desligasse o celular?

Experimentaria a mais amarga solidão. E no mundo virtual, não somos solitários. Existe uma vastidão de sentimentos semelhantes, almas-gêmea, amigos para a eternidade, até que um cabo se rompa ou uma profecia se cumpra e a barra de rolagem nos leve para o fim do feed de notícias.

Estabelecemos relações de cobrança, de ciúmes, posse, intimidade com pessoas que não conhecemos de fato. Pessoas que curtem e compartilham aquela coisa legal que você postou, mas não fazem a menor ideia do que você tem na geladeira pra comer. Será que você tem alguma coisa? Pessoas que se penalizam com sua atualização de estatus informando estar doente e estimam sua melhora, mas não te visitam depois do expediente pra lavar aquela louça que sua coragem não deixou. Pessoas sinceramente boas e reais, mas distantes da sua realidade física, daquele contato e calor que necessitamos para sentirmo-nos vivos.

Mas não desligue seu celular. Continue pagando suas contas com as devidas precauções de segurança, sabendo notícias em tempo real daquele parente que mora longe e mantendo aquele laço com aquela pessoa tão especial que você prometeu conhecer pessoalmente um dia.

E conheça. Transponha essa barreira. Faça real aquela foto daquele parque, daquela praia e aquele pôr-do-sol. Saiba qual é o cheiro dessa pessoa, sua voz fora do fone, como ela desvia o olhar quando fala, quais pintas o Photoshop escondeu. Faça ser para sempre a amizade que jurou eterna, além dos cabos e torres.

Não desligue o celular. Mas pense… O que aconteceria se você desligasse o celular agora mesmo? Se desconetasse de suas redes sociais e passasse dias, semanas ausente? Quem bateria na sua porta ou te procuraria no trabalho?

Não desligue o celular. Mas se ligue na vida passando bem ali do lado. Nos seus pais, filhos, gatos te chamando pela casa enquanto sua boca responde com seus olhos e dedos colados na tela. Levante a cabeça no ônibus, na rua, na fila do banco, guarde o celular no bolso, na bolsa, deixe a bateria acabar.

Não se desconecte do mundo virtual. Apenas pense o quão conectado (a) está ao mundo real.

Vou pensar nisso também…

Imagem de capa: nd3000, Shutterstock

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.

2 COMENTÁRIOS

  1. Amei este texto!
    Gostei tanto q logo pensei em compartilhar c amigos,conhecidos e familia
    Aí fiquei pensando quem iria ler o texto até o final!quase desisti!
    Mas depois pensei q nao custava tentar.
    Vou compartilhar sim!

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