Se segurar a minha mão, podemos atravessar a vida até chegar onde o sol se põe…

Attraversiamo… Confesso que não é uma palavra que eu tenha guardado na mente, mas quando você a mencionou, acionou minha memória. Acho que foi golpe baixo seu, fazer referência a um de meus filmes preferidos. Surtiu efeito…

Dá um trabalho desgraçado manter um relacionamento. Não qualquer relacionamento! Aquele que amolece as pernas, que faz a saudade apertar o peito, que faz o beijo ser sempre como o primeiro, com o bônus da experiência e dos macetes para fazer o tal beijo render. Não… Não qualquer relacionamento… Mas aquele que faz planos audaciosos, que ama para valer, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, já que o amor não tem nada a ver com isso.

E quando dá trabalho, a gente se atrapalha, não é não? Quando eu me atrapalho com um escrito, tenho vontade de sair embolando o papel e arremessar no lixo, recomeçar uma folha nova, sem intempéries. Quisera com os relacionamentos fosse assim. Acho que para muitos até são, por isso muitas relações são tão curtas.

Mas quando a gente se importa, não dá para sair recomeçando “uma folha nova” toda vez que fizer um borrão na anterior. Também não dá para apagar o erro… A gente conserta e segue adiante.

E eu lá quero uma relação toda borrada, rabiscada, cheia de reparos e consertos? Não quero, não. Quero fazer tudo bonitinho, para quando reler, não encontrar tantos erros que acabem deixando a história feia de se olhar e sentir. Os borrões atrapalham a beleza das letras, se forem muitos, não vai parecer uma história, mas um rascunho qualquer.

Attraversiamo… “vamos atravessar, ir adiante, permitir-se ao novo, sem medo…”

E se já não é mole cuidar de uma relação, que dirá quando ela nos força a ir adiante, arriscar, conhecer o novo sem ter medo. Porque dá trabalho manter um relacionamento… Não qualquer relacionamento, mas um como o nosso, onde attraversiamo poderia, facilmente, ser nossa palavra de ordem.

Não sei como é que a gente não tem medo. Não sei como se faz para nos livrarmos da couraça antiga, cheia de marcas de experiências anteriores, cheia de expectativas não realizadas, como é que a gente estende a mão e caminha sobre a água com um estranho conhecido que de repente, nos convida a atravessar a vida, sem medo. Não sei como a gente faz isso… Não sei, não…

Eu achei que você sabia. Quando você me convidou, eu tinha certeza de que tinha um bote salva-vidas equipado, um kit sobrevivência, que você era uma bússola humana, detentor de todas as respostas, que poderia me amparar e eu poderia fraquejar. Não me atentei que estava me chamando para “atravessarmos”. Você e eu. Você precisava de amparo também. E achou que eu tinha um bote salva-vidas equipado, um kit sobrevivência, que poderia te guiar e te dar respostas.

Descobrimos, juntos, que para attraversiamos nosso caminho, teríamos muito trabalho. Teríamos que tirar as roupas que escondiam nossos corpos cheios de cicatrizes e imperfeições e nos mostrarmos nus para o outro, percebermos defeitos que as roupas camuflavam, conhecer o medo, a insegurança, essa ou aquela decepção e aprendermos que amar… Ah… Amar não é nada disso que a paixão diz que é. Amar… Dói. E dá medo, além do contentamento.

Ir ou ficar. Não romper, mas ir, ou ficar. É o que os casais decidem quando resolvem que querem ficar juntos.

Ficar. Zona de conforto. Conhecer os defeitos, as qualidades, ponderar, respirar, não discutir, não ousar, não atravessar aquela linha tênue entre a serenidade e a intensidade. O amor sereno mora na Rua da Zona de Conforto, sem número, no Bairro do Isso Vai Longe. Casa, trabalho, amigos, churrasco no final de semana, filhos, cachorro, gato, almoço na casa da sogra, bodas de ouro.

Ir. Atravessar. Zona de perigo. Conhecer os defeitos, as qualidades, ponderar, respirar, discutir, ousar, atravessar a linha tênue da serenidade e experimentar a intensidade. O amor intenso mora na Rua da Coragem, sem número, no Bairro das Lembranças Memoráveis. Casa (ou não), trabalho (sem escravidão), amigos (só os melhores), churrasco (quem sabe, ou um piquenique, uma volta de bicicleta, uma caminhada, um pôr do sol, uma garrafa de vinho), filhos, cachorro, gato, fugir da sogra, bodas de brisa, porque as comemorações são diárias.

“Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.” Concorda, Vinicius de Moraes?

Eu achava que você sabia… Que nada! Você não sabe de nada. Você veio descobrir junto comigo como é que a gente atravessa para chegar lá naquela linha do horizonte, onde o sol se põe. E então nos pusemos a caminhar, ir adiante, experimentando o novo, arriscando, tentando não ter medo.

Eu sou toda errada. Cada tentativa de acerto meu coleciona erros. E nossa história já tem lá seus borrões, mas eles não tiraram a beleza das letras que vão nas nossas páginas. Para mim, os rabiscos só mostram que estamos vivendo com a tal intensidade, arriscando, nos permitindo.

Bodas de brisa… Durando com essa intensidade de infinito, enquanto vamos attraversiando la nostra strada.

Eu também não sei de nada… Mas se você segurar a minha mão, podemos caminhar pelo resto das nossas vidas na direção daquele horizonte, até chegar onde o sol se põe…

Imagem de capa: Ermakov Evgeny, Shutterstock

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Luciana Marques
Leonina de coração eternamente apaixonado, dramatizo e poetizo a vida. Então às vezes, quando as palavras me sobram e os sentimentos transbordam... Escrevo!

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