Queria eu aprender a esquecer

Sempre acreditei ser uma dádiva memorizar coisas. Números, lugares, momentos, datas, nomes, rostos, cheiros e tudo o que mais somos capazes de nos lembrar a cada dia. De fato a memória é uma dádiva da qual poucos tem o domínio completo, poucos são aqueles que conseguem se lembrar de tantas coisas e detalhes com extrema sutileza e cautela. Mas ter boa memória não é sempre a melhor coisa que possamos ter em nossa vida. Às vezes, uma memória boa e consistente pode ser a chave para um castigo eterno e irremediável, machucando profundamente dia após dia. Não se esquecer de algo ou alguém pode ser tão doloroso quanto esquecer. Acredito que essa é parte ruim de lembrar-se de tantas coisas.

Por mais que não pareça, senti medo por ter esquecer. Aos poucos você foi sumindo da minha mente, sendo cada vez mais ausente. Sei que vai chegar um momento que você será apenas um borrão entre as memórias e então não conseguirei mais visualizar toda a sua imagem como tenho feito mesmo após todo esse tempo. Sei que em algum momento vou conseguir seguir em frente e aceitar que você faz parte do passado, mas hoje não posso fazer isso, nem por mim e nem por você. Por mais que você com toda a sua racionalidade me diga que vai ser o melhor, simplesmente não consigo. É como se fosse apagar toda uma história, uma memória que tive ao seu lado. E acredite, sou péssimo nisso.

Por isso ainda insisto em te manter viva aqui dentro, te manter presente, mesmo sabendo que você já seguiu sua vida. Pode ser loucura minha, mas isso me faz acreditar que a vida pode ser melhor um dia. Não estou pronto para dizer adeus, nunca estive pra falar a verdade. As coisas aconteceram na minha frente e escolhi não tomar a melhor atitude para reverter isso. Você se foi como era de se esperar e levou embora toda minha história, todos meus sonhos e planos. Na verdade levou meu único plano. Nunca tive um plano b, um plano de emergência para caso as coisas dessem errado e veja só a ironia que o destino nos causou.

Não te esqueci, pois tive medo da despedida, na verdade não consigo lembrar da despedida, do nosso último encontro, o último beijo, o último momento que passamos felizes, sonhando com o futuro. E como num passe de mágica no outro instante nada mais era igual à antes, as coisas mudam em um segundo e num piscar de olhos tudo que era real se esvaem, as luzes se apagam o ator sai de cena, troca a roupa, tira a maquiagem e sobra apenas o vazio, aquele último fio de luz que reflete sobre um rosto que não conhecemos. A vida também é assim e quando a gente menos espera tudo chega ao seu fim independente de estarmos prontos ou não. E por mais longa que seja a viagem devemos aprender a sentir prazer por cada nova parada. E nessa parada que devemos aprender a dar valor às pequenas coisas, aos momentos mais singelos e puros de nossa vida. E só então estaremos prontos para viver uma nova história novamente.

Imagem de capa: Sergey Chayko, Shutterstock

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Igor Cruz

Arquiteto, urbanista, escritor, podcaster e editor. Escrevo em busca de algo que me conecta com o outro, que me faz emergir em uma onda de amor e pensamentos sobre o que a vida ainda pode ser. A escrita é uma ponte que nos conecta há um novo mundo cheio oportunidades e conhecimentos. Cabe a nós e somente nós, dar o primeiro passo para atravessar essa ponte. Podcaster no InFormais Podcast.

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