Na disputa entre suas vontades e seu domínio próprio, quem vence?

O título refere-se ao tema principal do romance “O lobo da Estepe”, do alemão Hermann Hesse. O romance de 1927, é tema de grandes discussões até hoje, visto que aborda temas atemporais, polêmicos e individuais.

Hesse definia sua obra de forma objetiva: “ser um lobo da estepe não é um capricho de um solitário, mas a enfermidade do próprio tempo.”

De forma muito resumida (fica aqui a sugestão de leitura do livro) a história de “O lobo da Estepe” não é nada simples. Harry Haller, protagonista da obra e intitulada, por ele mesmo como “o lobo da estepe, é um sujeito culto que se julga autossuficiente e, por isso mesmo, torna-se um ser antissocial. Halley não acredita em amizades, amores ou qualquer relação humana que possa ser estabelecida através da convivência. Vive seus dias, em Berlim, no início do século XX, como um lobo solitário.

Diante de vários questionamentos que envolvem questões sobre a própria existência, o protagonista resolve acabar com a própria vida, já que não vê motivos suficientes para permanecer nesse mundo. Porém, no dia em que resolve cometer o ato, Haller conhece uma mulher que mudaria seus pensamentos em relação à humanidade, fazendo-o acreditar que existem “pessoas” que valham a pena dividir os dias. O problema enfrentado por Haller é que, ao envolver-se sentimentalmente com ela, o protagonista é tomado de sentimentos desconhecidos por ele (ataques de pânico e fortes crises de angústia e desespero), visto que a rotina de solitário tinha dado lugar à convivência de casal.

História apresentada, foquemos nas mensagens de Hesse, descritas nas entrelinhas dos pensamentos de Haller.

Uma das frases mais marcantes do livro, embora represente uma justificativa do comportamento solitário do protagonista, proporciona várias interpretações que levam a sociedade a refletir sobre os próprios sonhos: “Todo o homem forte alcança infalivelmente aquilo que procura com verdadeiro afinco” e, continuava ao argumentar sobre sua opção pela solidão: “(…) pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão dos outros”.

Se por um lado a solidão era justificada por Haller, por outro entendia que a dor era uma condição de melhorarmos como humanos: “o homem devia orgulhar-se da dor; toda dor é uma manifestação de nossa elevada estirpe”.

Outro subtema recorrente do livro é o suicídio. Apesar de estar convicto que praticaria tal ato, Haller demonstrava uma luta, no campo da mente, entre a razão e o desejo: “(…) a todos os suicidas é familiar a luta contra a tentação do suicídio. Cada um deles sabe muito bem, em algum canto de sua alma, que o suicídio, embora seja uma fuga, é uma fuga mesquinha e ilegítima, e que é mais nobre e belo deixar se abater pela vida do que por sua própria mão”.

Essa luta entre razão e desejo estende-se por todo o livro e leva o indivíduo a refletir sobre sua postura em relação à sociedade que está inserido: “tenho manifestando já por vezes minha opinião de que cada povo e até cada indivíduo, em vez de sonhar com falsas “responsabilidades” políticas, devia refletir a fundo sobre a parte de culpa que lhe cabe da guerra e de outras misérias humanas, quer por sua atuação, por sua omissão ou por seus maus costumes; este seria provavelmente o único meio de se evitar a próxima guerra.”

Ouso dizer, em uma humilde e objetiva opinião, que Hesse pretendia levar o homem à refletir sobre suas próprias batalhas mentais, já que todos nós temos vários “Eus” dentro da mente. Se hoje somos amáveis, amanhã podemos estar raivosos. Se uma situação nos agrada, em outro momento pode nos incomodar. A questão é como lidamos com essas situações e até que ponto as emoções prevalecem sobre nossas ações.

Autocontrole, domínio próprio e razão deveriam ser natos no ser humano, mas como não são, o mesmo criar essas qualidades como forma de sobrevivência. “Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo”. (Hermann Hesse)

Imagem de capa: vavavka, Shutterstock

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Pamela Camocardi
A literatura vista por vários ângulos e apresentada de forma bem diferente.

1 COMENTÁRIO

  1. Apaixonei-me por Hermann Hesse aos quinze anos de idade, ao abrir por acaso um de seus livros e deparar com as palavras:

    Teatro mágico – só para loucos.

    Comprei o livro, que devorei ansiosa, para descobrir o que era o tal teatro mágico, dentro do qual o personagem senta-se diante de um tabuleiro de xadrez para elaborar sua própria vida. O título era O Lobo da Estepe, e, na época, eu também era uma loba solitária, a uivar incompreendida pela vida. (por que será que, na adolescência, temos esta incrível necessidade de sermos rebeldes incompreendidos?)
    Hermann Hesse influenciou profundamente meu pensamento adolescente. Copiei e colei na porta de meu quarto o poema chinês que ele colocou à entrada de sua casa, clamando por solidão e por paz, pois, em minha adolescência, eu tinha oitenta anos. (hoje tenho quinze, quem disse que a idade da alma á cronológica?) Em meio ao sofrimento do pós-guerra, este alemão revela a esperança do gesto solidário, esperança que brota de nossa própria atitude interior de tolerância e aceitação do outro, da vida.
    Homem que muito sofreu, adquiriu sabedoria, pois o sofrimento é alquímico: a dor é a pedra filosofal que transmuta o barro da ignorância no ouro da espiritualidade.
    Hesse foi um buscador e vários de seus livros são de cunho autobiográfico, mas daquela biografia interior, narrando as peripécias da alma em sua busca por um sentido.

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