E todos os dias eu desejo minha vida simples, intensa e real; vivida para mim e para quem realmente importa…

Pensando no contrassenso das coisas…

Você já reparou como trabalhamos arduamente uma semana, um mês, um ano inteiro, para termos pequenos minutos de lazer, pequenos minutos de prazer?

E em como buscamos a vida toda pelo conforto, pela comodidade, pelas máquinas de fazerem tudo, por pessoas que façam por nós e, consequentemente, demandem dinheiro e tempo de nossa parte para poder custear isso?

Você já refletiu em como nosso coração sente conforto quando desfrutamos do simples? Como compartilhamos fotos de bules de café e fogão a lenha, de vida na roça, como paramos para admirar um programa de TV mostrando um projeto de pessoas do bem fazendo alguma coisa simples em um lugar remoto onde a luz acaba às 22h?

Alguém muito querido com quem divido reflexões muito valiosas sobre desapego e amor real vai me ler e provavelmente sorrir e espero que não peça direitos autorais pelo que vou dizer aqui (risos), porque as sementes não germinam em solo improdutivo. Custa nada, zero, nadica de nada ser feliz DE VERDADE.

Agora, é claro, isso depende muito da sua concepção de felicidade. Depende muito do que você precisa na vida para ser feliz.

Mas eu vou arriscar, sem medo, a dizer que quando trabalhamos um ano inteiro para nos enfiarmos em algum lugar distante nos nossos míseros dias de férias e damos graças por lá não ter sinal de celular e internet, nós ESTAMOS felizes, não SOMOS felizes.

Outro dia ouvi (mais ou menos o seguinte do semeador acima), que não vivemos em sociedade, nós comercializamos nosso conhecimento, não existe essa de sociedade porque viver em sociedade é compartilhar o que temos e sabemos. Não é? Mas eu não faço isso. Você não faz. Nós nos matamos literalmente, todos os dias um pouco, para vendermos o conhecimento que adquirimos a um custo bem alto. Nós vemos nossa vida passar demarcada de segunda a sexta-feira (e muitos sábados, domingos, feriados), juntando dinheiro para custear as despesas da nossa velhice que serão altas, porque não chegaremos lá com saúde para aproveitarmos o final da estrada.

Hoje estava assistindo um programa de TV falando de solidariedade. Meu Deus, isso dá ibope! Isso prendeu minha atenção.

São pessoas pegando o que a gente joga no lixo e fazendo virar vida para outras.

Gente que não precisa de quase nada de dinheiro, que come o que planta, que vive com o que tem, que não se escraviza todos os dias permitindo que lhe coloquem um preço baixo e lhe cobrem um preço alto por resultados no final de um período.

Aí eu volto a te perguntar… Quantas vezes você viajou na possibilidade de largar tudo e viver da maneira mais simples que pudesse? Quantas histórias assim você ouviu e talvez viu, e sentiu um desejo profundo de fazer e ser igual?

Quantas vezes sua memória voltou a um passado onde você vivia de forma simples e pensou: “na minha época a gente era feliz”.

Por isso fico pensando no contrassenso das coisas. Nós criticamos quem vive “de brisa”. Achamos que temos que trabalhar duro a vida toda para sermos pessoas honradas e, eu não digo que não temos, mas eu me lembro da minha bisa repetindo “pedreiro Vardemá, faz tanta casa e não tem casa pra morar” e penso: eu estou trabalhando duro para que alguém permaneça rico enquanto eu sigo morrendo.

Conheço muita gente, gente que amo, inclusive, que vai dizer que sou sonhadora. Que a vida não é assim

Eu sei como é bom ter dinheiro, poder comprar o que quiser, lotar o armário de roupas que nunca uso para chegar o dia de ir comer um cachorro-quente e eu pensar que não tenho roupas. Eu sei como é o espírito consumista e como é bom ter conforto. E eu sei como é a escravidão de virar refém da própria vida.

Eu não quero escrever a vida toda sobre isso, sabe? Não quero refletir em como é bom imaginar como seria a vida simples e desprendida desse materialismo que nos cega. Quero mesmo é fazer algo por você porque eu sei fazer e não me custa nada, e o bem que eu te fizer vai voltar para mim e, o bem que me negar será cobrado pela vida, um dia, de você mesmo, mas eu, eu vou seguir em paz comigo, sem títulos, sem dinheiro no banco, sem plano de saúde.

Eu sei, o plano de saúde faz a gente pensar! (risos) Outro dia mesmo fiquei pensando nisso e concluí o seguinte… Você, com dinheiro e plano de saúde, vai chegar primeiro no seu quarto confortável e ter o melhor atendimento médico (ou não), vai assistir deprimido seus herdeiros preocupados com o que vai acontecer com os bens quando você morrer e, acredite, por mais amor que exista entre uma família, isso sempre será uma razão para a discórdia, para os telefonemas e mensagens no grupo da família discutindo sobre “o melhor” para todos. E eu, pobre e na fila do SUS, com sorte vou ter um velho ainda apaixonado do meu lado segurando minha mão, mas se ele já tiver partido, estarei eu fechando os olhos rebuscando minhas memórias felizes que me ajudarão a enfrentar a estrada para o fim dessa jornada.

Eu estou sonhando demais? Estão sonhando demais todas as pessoas que você buscar no Google “gente que largou tudo para ter uma vida simples” e vou te dizer, o sonho deve estar bom, porque não acordaram até agora!?

Não é sonho não… Nós achamos que fazer o melhor por nossos filhos é poder gastar uma fatia enorme do salário num ovo de páscoa exploratório, é pagar a mensalidade da escola ou ter a carteira do plano de saúde para sacar quando preciso. Mas o melhor para meus filhos é quando eu deito com eles no chão e leio um livro qualquer. É de doer meu coração quando eu sento para brincar com minha filha e ela solta um “ebaaa, a mamãe vai brincar com a gente” e eu me sinto um nada porque estou empregando minha vida toda por aí buscando o vento quando ela precisa apenas da mãe.

Nós achamos que o valor está em poder comprar a bota da nova coleção ou pagar um pacote de viagem para algum ponto turístico famoso. Não existe felicidade real nisso. Minha felicidade é quando meu pai para o carro no meio da estrada e se enfia num mato qualquer achando um rio bonito para passarmos o dia, aquele lugar onde ninguém vai porque tem pouco conforto (pago), mas tem felicidade. Felicidade pra mim é me hospedar na pousada mais chinfrim numa praia isolada, e ver a vida acontecendo de graça.

Estou sonhando demais? Você que assiste encantado (a) na TV pessoas largando tudo (ou seria indo atrás de tudo que importa?) e sente no seu interior aquela inveja da felicidade gratuita delas, diria que sonha demais?

Fico pensando no contrassenso das coisas… E acho que o mundo ainda será assim por muito tempo. Mas perdi o interesse em fazer parte desse mundo. E todos os dias eu desejo que minha vida seja simples, intensa e real, vivida para mim e para quem realmente importa… Quase nada de material, mas uma felicidade que eu jamais vou poder mensurar.

Imagem de capa: paultarasenko, Shutterstock

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.

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