A tortura ou ternura dos 40?

Imagem de capa: goodluz, Shutterstock

A tortura ou ternura dos 40? Confesso que ainda estou a tentar perceber se isso que se trauteia nas músicas sobre a ternura dos quarenta e sobre os quarenta serem os novos vinte é mesmo verdade ou se não será uma maneira elegante de tapar o sol com a peneira e de nos tentarem – de uma forma menos agressiva – dizer: «Minha menina, agora acabaram-se as desculpas, de menina já não tens nada e, a partir de agora, vais começar a tratar por tu as dores nas articulações e oitenta por cento das pessoas com quem te vais cruzar quando cometeres a ousadia de ires beber um copo vão ter idade para serem teus filhos.

O ser humano – com especial incidência no povo português – tende a desconfiar daquilo que é bom. Critica, desconfia, fica em alerta e, acima de tudo, fica sempre à espera de que lhe seja pedido algo em troca «Ninguém dá nada a ninguém» «Quando a esmola é demais o santo desconfia» – dizemos, em modo de ladainha enquanto aceitamos, a custo, qualquer coisa que nos queiram oferecer. Assim estou eu em relação à chegada dos quarenta anos. Meia desconfiada. Para mim, este é o ano em que muitos dos meus amigos de criação – quando privamos há mais de vinte anos já são considerados amigos de criação, não são? – Chegam à meta dos quarenta. Muita festa vou ter eu, este ano! Que se preparem os sunsets, os brindes e os hinos à vida. E se eu sobreviver a isto tudo, lá para Julho, também chegará a minha vez de entrar pelos quarenta adentro. Mas é quando não estamos em festa; quando as luzes se apagam; quando acalmamos esta euforia do que é celebrar para fora, que começamos a fazer o balanço para dentro. Na melhor das hipóteses, metade da vida já lá vai. Já foi. Puff! Já desapareceu.

Resta-nos, portanto, a outra metade. É aí que começamos a pensar – é inevitável não o fazer – sobre o que queremos fazer com a metade que nos resta. É aí que entram as tais canções e as tais ladainhas. Será assim tão bom como dizem? Não era suposto estarmos mais preocupados com as rugas, com os quilos mais, com a falta de energia e com a reforma? Talvez. Mas a verdade é que não é isso que encabeça a lista das tuas preocupações. Primeiro, começas por desconfiar de ti mesma. Estranhas-te. Pensas que poderá estar a passar-se alguma coisa contigo. Depois, quando começas a conversar com as gentes da tua idade, começas a perceber que estes efeitos meio estranhos que tens andado a sentir também são extensíveis aos teus e que eles também andam a sentir, exactamente, a mesma coisa. E é aí que começas a perceber, verdadeiramente, o que significa chegar aos quarenta.

Aos vintes anos tens urgência em viver. Como se um jogo de níveis se tratasse. O objectivo é só chegar ao próximo nível. Custe o que custar. O sangue pulsa-te nas veias e tens uma vida inteira à tua espera. Queres sorver tudo. O bom, o menos bom, o péssimo e, por vezes, o intragável. Faz parte. Só experimentando tudo é que poderás ter o conhecimento suficiente para, depois – mais tarde – conseguires escolher em consciência o que é melhor par ti. Aos vinte anos queres sair de casa. Queres ver como é o mundo lá fora. Queres ver o mundo de fora. Duas directas na mesma semana? «Faz-se na boa».

Queremos assumir o mundo adulto sem, no entanto, deixar de ser adolescente. E não é que lá vamos conseguindo? Aos vinte anos és rebelde por natureza. E ser rebelde, aqui, não é sinónimo de ser marginal. É fazer muitas asneiras sim, mas não significa que o sejas porque não te revês na sociedade ou porque queres chamar a atenção. Não. És rebelde porque tens vida a correr-te no corpo e isso tem de se manifestar de alguma maneira. Passas tanto tempo virada para o mundo lá fora, para as experiências, para as vivências que te vais esquecendo do mundo cá dentro. O teu mundo. E eis que, aos poucos, começa a acontecer uma coisa maravilhosa. Sentes que começas, de facto, a viver. Tudo o que já viveste traz-te a experiencia necessária para, agora, serenares. E que não se pense que é porque já não podemos com uma gata pelo rabo, porque não o é. É porque as prioridades começam a mudar, profundamente. Se aos vinte anos o que mais querias era passar o maior de número de horas seguidas fora de casa, à porta dos quarenta, regressas a casa. Usufruis, finalmente, do teu sofá – com uma boa chaise longue – e substituis a cerveja por um bom copo de vinho – e até começas a querer saber mais sobre castas.

Aos vinte anos tudo são incertezas. Depois logo se vê. Aos vinte é hora de arriscar. Depois chegam os quarenta e percebes que aos quarenta é hora de riscar. Riscar o que não te interessa, o que não te serve, o que não condiz contigo. Perdes menos tempo com o desnecessário. És muito mais selectiva. E isso não significa que passes a ser prepotente ou arrogante. Não é isso. É apenas teres a clarividência para ires ao encontro apenas daquilo que te faz sentido. Aos quarenta começas a ter gosto de cuidar de ti. Verdadeiramente. Mesmo que isso seja uma consequência quase obrigatória de tentares adiar, o mais que conseguires, as marcas próprias da idade. Aos quarenta, um jantar com amigos não é apenas mais um jantar com amigos. Aos quarenta cada jantar é uma celebração à vida, uma fonte de conhecimento, uma partilha de experiências. Aos quarenta um dia não é apenas mais um dia. Aos quarenta um dia é uma nova oportunidade que a vida te dá para seres feliz. E aos quarenta desperdiças, cada vez menos, as oportunidades que a vida te dá. Aos quarenta vais. Sem medo. Aos quarenta és. Sem filtros. Aos quarenta vives. Aos quarenta já não tens urgência em viver, mas tens urgência em sentires-te viva.

Talvez as músicas tenham razão. Talvez os quarenta sejam os novos vinte. Talvez a ternura esteja nisso mesmo. No facto da vida nos reservar sempre o melhor para o fim. E, aos quarenta, descobres que o melhor da vida és tu.

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Júlia Domingues
Júlia Domingues. 39 anos. Jurista de formação, criativa por paixão. Sou feita de gargalhada estridente talvez porque acredite que, estridente deva ser a nossa existência. Não para os outros. Para nós. Estamos começados mas não estamos acabados. E , no fim; no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras e no desenho. Sou mulher e sou feliz.

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