Seus olhos azuis

Imagem de capa: Viatkins, Shutterstock

Eu fugi de você. Evitei os mesmos ambientes, as mesmas festas e os mesmos bares. Eu abandonei o Tom e me tornei o Jerry. Eu não estava preparada para encontrar com o executor da minha sentença. Como encarar de novo aqueles olhos azuis? Como desviar e não me deixar levar pela imensidão que eles carregam? Como não cravar os olhos em você e esquecer toda e qualquer ferida que um dia você abriu em mim? Era razoável que eu me escondesse de qualquer investida vinda de você ou das lembranças que insistiam em me visitar.

Era uma noite quente de verão e ao avistar aquele céu que você carrega no semblante, minha cabeça virou do avesso. Eu tinha justificativa para nem olhar para você, tinha pretexto para dar meia volta e correr pra casa, tinha desculpa para gritar e lhe mostrar todas as cicatrizes que ainda levo comigo. Eu poderia fingir que você não estava presente e mostrar a todos a minha superioridade. Esfregar na sua cara que eu superei você e todas as mentiras que contou quando decidiu que eu não bastava. Eu não bastava mesmo? Seus olhos contaram outra história naquela noite quente de janeiro.

Seu olhar passeava pelo recinto em busca do meu, ele se perdia na imensidão de outros olhares e só descansava quando me encontrava. Você pode imaginar o quão confuso foi para mim? Notar que era o meu olhar que abrandava o seu foi custoso. A gente nunca quer acreditar que o milagre aconteceu assim, bem debaixo do nosso nariz. Seria mesmo um milagre ou apenas mais uma artimanha sua? Por mais que eu sentisse que você clamava por mim, a desconfiança ainda impedia que eu me atirasse ao mar sem colete. Eu não sei nadar e escolhi permanecer em terra firme.

Apesar do frio que faz hoje, minha cabeça ainda mora naquela noite quente de janeiro. Me lembro das estrelas que brilhavam lá no alto e previam que eu ficaria desnuda de escudos, que eu baixaria a guarda ao notar um olhar, que deveras esteve distante, mas que naquela noite conectava com o meu. Um olhar azul e profundo como o oceano, que me devorava de longe preparando a grande onda. Que me atravessava feito bala e me fazia esquecer todas as promessas que fiz a mim mesma. Que fazia minhas certezas desmoronarem feito castelo de areia.

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Monika Jordão
Atriz, escritora e paulistana. Acredita que o papel reflete mais do que o espelho. Apaixonada por livros, futebol, tequila, café e Coca-Cola. Buscando sempre o equilíbrio emocional e os amores inesquecíveis.

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