Não superexponha a sua felicidade

Imagem de capa: baranq, Shutterstock

Não se trata de esconder a felicidade a sete chaves, pois um dia nem você conseguirá achá-la. Mas não a superexponha, como um troféu ou um produto na vitrine. Isso é tudo, principalmente vaidade e euforia, menos felicidade. Se você possui um amor correspondido, preserve-o. Se tem tido muitas conquistas, proteja-as. Se é feliz, agradeça. Em tempos de culto às redes sociais, viver da forma mais anônima possível pode lhe trazer mais ganhos do que perdas.

Se você não percebeu, infelizmente a felicidade – ainda que seja apenas o seu estereótipo – às vezes incomoda quem não consegue ou não sabe ser feliz. Pode despertar a dor, a inveja e a cobiça. Sim, cuidado, existem ladrões de felicidade capazes de furtá-la sorrateiramente. Eles podem ser estranhos, conhecidos e até mesmo você, quando o ego ou a ambição não te deixarem enxergar o que basta para ser feliz.

Sabe, muitas vezes a felicidade se esconde em atitudes e momentos triviais e inesperados, precisando apenas da nossa atenção, da nossa entrega e de privacidade. Como diz Antoine de Saint-Exúpery, em O Pequeno Príncipe: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Mas a impressão é que cada vez mais pessoas ignoram isso, preferindo gritar e esbofetear a sua pretensa felicidade na cara dos outros. Como se ela dependesse de audiência.

Para esses, ser feliz é ter uma casa luxuosa, um carro possante, roupas elegantes, viagens caras, aparência exuberante… e ah, claro, um amor idealizado. Tudo bonito, perfeito, pronto. Sem decepções e frustrações. O principal, mais do que viver, parece ser exibir a todo o momento essa felicidade, ainda que provoque amargura em quem não possui a mesma fachada, essa casca que se esfarela quando não há o que a sustente. É aí que se estabelece a mórbida simbiose entre os que gostam de ser invejados e os que invejam

Nada contra sucesso, dinheiro, conforto. Pelo contrário. No entanto, esses são meros e perecíveis acessórios de felicidade, suas circunstâncias externas – causas ou consequências – que colaboraram para uma pessoa ficar feliz ou mais feliz, mas também podem evidenciar a infelicidade diante de um vazio existencial. A felicidade duradoura vem do que é espiritual e emocional, e isso é impalpável, inexplicável e invisível. Como o amor, o bem-estar, o autoconhecimento e a paz interior, estes sim essenciais.

Fazer planos e obter conquistas profissionais, pessoais e materiais alimentam a nossa sensação de felicidade. Mas supervalorizar e expor isso pode nos tornar alvos de energias negativas, comentários e pensamentos de quem torce para que tudo dê errado. Mesmo sem intenção, o desânimo e a infelicidade alheios são capazes de criar um campo magnético ao redor de quem está próximo, arrastando os mais influenciáveis para o epicentro de seus terremotos.

Quem é ou pretende ser feliz não vive fazendo alarde, para dar satisfação de seus passos ou buscar incentivo. Repare: as pessoas realmente felizes são as mais discretas, as que preferem realizar de forma silenciosa os seus objetivos ao invés de propagá-los aos quatro ventos. Até mesmo viver os desacertos e a tristeza, com intensidade e longe dos holofotes, faz com que elas aprendam a se reerguer e dar valor à felicidade, se auto motivando constantemente.

Não podemos perder o foco e nem correr riscos que nos afastem da felicidade genuína. Ela deve ser compartilhada com quem desfruta da nossa intimidade. E cultivada como o nosso mais sagrado relicário.

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Nadja Bereicoa

Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás).
Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia.
Como diz o verso de um dos meus poemas, “Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer…”.

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