Indiferença, silêncio que diz muito

Imagem de capa: Nutnaree Saingwongwattana, Shutterstock

A indiferença, tão comum nesses dias de pessoas apressadas, frias ou que preferem maquiar suas emoções, é silêncio que diz muito e cala fundo em quem a percebe. O indiferente pode ser alguém que tem opinião mas preza a neutralidade. Assim não toma partido, não se compromete, não se aborrece… Pode ser também aquele que não se motiva, não percebe, não sente… Ou finge que não sente.

A grande questão é o que está por trás desse sentimento que mais parece ausência de sentimento, porém é a presença de várias emoções disfarçadas. Ele pode denotar desinteresse, isolamento e até apatia, causados pela falta de tempo ou de confiança e mesmo pela depressão. Pode ser apenas uma sábia decisão, para não acirrar uma briga, uma inimizade, mas também sinalizar fuga, defesa ou desprezo pelos outros.

Em épocas de emoções voláteis e volúveis, que surgem e somem com toques na tela do celular, pessoas automatizam, condicionam e banalizam suas reações e relações. Vivem extremadas com o que e quem não lhes dizem tanto respeito, mas indiferentes com aquilo que mais deveria lhes importar. Vivem reféns do medo, no limite entre a adrenalina e a anestesia.

Temos medo da violência, do fracasso, da rejeição, da ingratidão, deixando de nos entregar aos nossos melhores sentimentos e sonhos. Reagimos instintivamente ao colocar para fora nosso lado mais sombrio, enquanto usamos a razão para represar as nossas emoções mais luminosas. Nos acostumamos com a impotência, a incredulidade e a inércia, nos dessensibilizando aos poucos.

Ser indiferente às vezes é estratégia de sobrevivência de quem já sofreu ou não suporta ver sofrimento. Muitos têm vergonha ou não conseguem dizer o quanto admiram ou gostam de alguém ou de algo, ostentando um ar blasé, de tédio, de tanto faz como tanto fez… Há gente que carrega por aí a sua falta de expressão forjada com doses de decepção, cinismo ou pílulas tarja preta.

A grande diferença da indiferença não está somente quanto ao alvo, mas principalmente em sua real intenção. Há quem ignore uma cena de violência e injustiça na rua, a sua frente, assim como as conquistas ou dificuldades de um amigo ou um parente. A gente até espera que estranhos ou conhecidos nos sejam indiferentes, por mais que tenham razões para agir ao contrário, mas quando isso vem de quem achamos que nos estima pode ser um sinal.

A indiferença camufla emoções conflitantes: inveja, ressentimento, ciúme, raiva… ainda que haja bem-querer. É reflexo de uma sociedade egocêntrica e consumista, que privilegia o instantâneo e descartável, além de estimular a competição entre as pessoas. Tudo isso tornou a reciprocidade a regra de ouro atual. Quem dá um input já espera pelo feedback. Se isso não ocorre, alimenta a velha história de dar um gelo no outro e aí a indiferença vira birra de criança ou retaliação vingativa.

Todo mundo gosta de atenção e de ser correspondido e chega uma hora em que não adianta insistir para ouvir nossos sentimentos e atitudes ecoando no vazio. Mas vale analisar se o desinteresse do outro é pontual, se ele está indiferente consigo mesmo, com problemas, sem tempo ou em outra sintonia. Pense bem antes de apelar para a indiferença, pois ela fere, distancia e é um ato de desamor talvez pior que o ódio, pois aprisiona sob a casca do descaso.

Se você não tiver o seu valor reconhecido por causa da indiferença, não se abale. Encare a frustração de suas expectativas como lição para não alimentá-las além do limite saudável. Acredite no seu potencial mesmo sem a aprovação alheia, fortalecendo o seu equilíbrio emocional e tendo a certeza de que o problema não está em você. De quebra, lembre-se que muitas vezes impera o ditado “Quem desdenha, quer comprar”…

Não seja indiferente só para dar o troco. Não entre nesse jogo de sempre esperar algo em troca. Ria, chore, abrace, beije, elogie, se tiver vontade. Faça a diferença sendo quem você é de verdade!

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Nadja Bereicoa

Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás).
Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia.
Como diz o verso de um dos meus poemas, “Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer…”.

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