As tais borboletas.

Imagem de capa: Anatoliy Cherkas, Shutterstock

Sabes o que é mais curioso? É este frio que me assalta a barriga sempre que penso em ti; sempre que olho para o telefone e vejo uma mensagem tua – nem que seja para ler a coisa mais parva do mundo ou sempre que me lembro do teu sorriso – também, quem é que consegue esquecer esse sorriso? Chamam-lhe as borboletas no estomago. As tais borboletas. Aparecem de repente. E é de repente que ficas sem saber se são as pernas que te estão a falhar ou se és tu que estás a falhar com as pernas. Se não são borboletas não sei que mais poderá ser porque o meu corpo sofre, por frações de segundo, uma metamorfose tal que eu juro-te que sou capaz de voar. Juro-te que ganho asas. E sou livre. Como as borboletas. As tais borboletas. Desconfio que é amor. E desconfio que quando é amor; quando é mesmo amor, as borboletas vão sempre existir.

O frio na barriga irá sempre causar-nos os arrepios mais estranhos na pele e as pernas, essas, vão continuar a tremer. E eu que pensava que isto passava com a idade. E eu que pensava que estas sensações estavam apenas reservadas ao período da adolescência. Aí sim, podíamos sentir tanto porque eramos feitos de tudo. E eu que pensava que isto era um processo próprio de quem ama pela primeira vez. Mas enganei-me. Enganei-me redondamente. E fico com aquela sensação de que «ainda bem que me enganei». Sabes? A pele já vai dando sinais. O corpo já não tem a jovialidade de um corpo de vinte anos. Faz parte. E dás por ti a tentar – da melhor forma que consegues – contrariar a ordem natural das coisas. Dás por ti a contrariar os sinais do tempo. Queres atenuá-los. Embelezá-los. Disfarça-los. Não quero com isto dizer que não assumas as tuas rugas, os cabelos brancos ou as pernas cansadas.

Assumes. E, na maioria das vezes, assumes até com um imenso orgulho. Orgulho de ti. Em ti. Das tuas marcas. Das cicatrizes que contam histórias. A tua história. O que quero dizer é que a ordem natural das coisas – por muito que a contraries – dita que a pele vá envelhecendo. Que o corpo vá cedendo. Que o cabelo caia mais e que a resistência a esses factores vá sendo cada vez menos. A pele, essa, já vai dando sinais. Mas, e a alma? Ai a alma… A alma permanece intacta. A alma não se corrompe. Mantém-se pura. Selvagem. Rebelde. Viva. Sim, viva. Quando a pele teima em engelhar-se; quando as pernas parecem começar a falhar, vem a alma para nos lembrar que pouco importa a matéria quando o que nos mantém, realmente, vivos é a essência. É disto que somos feitos. Do que nos corre por dentro dos tecidos e não da forma que eles tomam por fora. E cá dentro eu [ainda] sinto tanto.

Sou feita de tanto. [Ainda] quero tanto. Há dias disseste-me: «Podes morrer, que para mim és eterna» Nada, mas nada podia espelhar melhor tudo aquilo que acabei de dizer. O corpo um dia vai morrer. Um dia choraremos a morte do corpo um do outro. Mas será só isso. Choraremos apenas o desaparecimento da matéria. Porque a essência, aquilo de que somos feitos; aquilo que nos mantem unos, isso, ai isso meu amor é eterno. Não tem idade. Não se corrompe. Não se altera. É imutável. Por exemplo, o meu cartão de cidadão, hoje, diz-me que tenho 39 anos – e que estou a escassos dias de entrar nos 40 –, mas eu posso jurar-te que, hoje, não tenho mais de 19, 20 anos. Posso jurar-te que voltei a ser adolescente. A sentir como uma adolescente. Daquelas que ficam com os nervos à flor da pele só de pensar na possibilidade de te ver. Hoje, tenho a certeza de que a noite será passada em branco. Será passada a imaginar, baixinho e antes de conseguir adormecer, os mil e um cenários e as mil e duas palavras que gostaria te de dizer. De fazer. De te pedir. De [te] viver.

Esta noite, antes de adormecer, vou amar-te com todas as minhas forças. Com todo o meu querer. E vou adormecer à pressa para que chegue amanhã. Só porque amanhã os meus olhos voltarão a perder-se nos teus. Porque amanha – mesmo que não aconteçam os mil e um cenários que idealizei; mesmo que não te consiga dizer metade das palavras que decorei – tu voltarás a ser meu. Foi assim há 10 anos – quando te vi pela primeira vez – e, hoje, volta a ser exactamente assim. Hoje, [ainda] é assim que sinto. Hoje, [ainda] é assim que te sinto. Porque, há 10 anos, quando olhei para ti, pela primeira vez, não foi pelo teu corpo que me apaixonei. Foi pela tua alma. Há quem diga que são as tais borboletas. Eu prefiro pensar que é amor.

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Júlia Domingues
Júlia Domingues. 39 anos. Jurista de formação, criativa por paixão. Sou feita de gargalhada estridente talvez porque acredite que, estridente deva ser a nossa existência. Não para os outros. Para nós. Estamos começados mas não estamos acabados. E , no fim; no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras e no desenho. Sou mulher e sou feliz.

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