Sou uma mulher de cem anos

Imagem de capa: Kiselev Andrey Valerevich, Shutterstock

Sou uma mulher de cem anos. Meu coração é fraco. Choro ao ler um poema e ao ver um menino no semáforo. Não tenho mais medo da morte, mas amo muito a vida. Amo tanto que cuido. Amo tanto que guardo nas mãos, como pintinho indefeso e sem mãe. Amo tanto que rego as minha flores todos os dias e tento regar as flores dos quintais vizinhos.

Sou uma velha sem importância. Tenho vontade de permanecer em silêncio em meio às tantas falas. Não ligo para presentes e conquistas. Os assuntos desse mundo me interessam menos que um sorriso de uma criança. Fujo da realidade olhando um voo de borboleta.

Sou uma senhora aposentada, não sirvo mais para nada. Tenho a pele fina, os ossos frágeis, os olhos cheios de lágrimas, um sorrisinho nos lábios e o pensamento longe. Tudo em mim se distrai, até minha identidade.

Sou uma velhinha sem forças, mas cheia de sentido no olhar. Sentada, tricotando um cachecol para reaquecer os corações. Pronta para a vida, mas não para o mundo.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é paulista dos interiores, nascida nos anos 80. É escritora, poeta e agitadora cultural. Faz parte do grupo editorial Laranja Original e escreve regularmente para o site Conti Outra. Publicou, pela editora Chiado, o romance poético Castelos Tropicais (2015) e a coletânea de poemas, pela editora Sempiterno (2016), Instruções para Lavar a Alma. Em 2017 lança, em parceria com músicos e compositores, o álbum Lavar a Alma, que reúne 13 de seus poemas musicados.

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