Quem quer ter razão perde tudo, até a razão

Imagem de capa: Roman Samborskyi, Shutterstock

Algumas pessoas perdem tudo para provar que têm razão. Perdem o tempo, os amigos, a saúde…Tudo pela necessidade de levar a sua opinião às derradeiras consequências do convencimento. Tudo para dar a última palavra numa discussão acalorada, com direito a tréplicas e quádruplas. No final das contas, esbravejam, xingam e perdem a paz e a lucidez, junto com a razão.

Poucos são os sábios que dão o braço a torcer ou se calam mesmo quando acham que têm razão. Se veem que o diálogo se encaminha para a animosidade, dispensam o orgulho da vaidade pelo orgulho de quem preserva a sanidade comum. Para esses, escolher não ter razão publicamente é um exercício de humildade, é abrir mão de uma tola onipotência e se contentar apenas com a consciência silenciosa da razão.

A razão barulhenta, que quer competir e estar certa, quase sempre afasta e magoa. Atualmente, a maioria das pessoas faz valer essa razão de forma irascível, como se as suas palavras pudessem penetrar na alma alheia para catequizá-la. Tempo perdido em vão, porque a razão é algo que todo mundo carrega e procura defender. A vida mostra aos poucos quem a tem de fato.

Na internet, onde são comuns o chavão “Pronto. Falei!” e os enormes textos de desabafos, as pessoas muitas vezes acham que falam o que pensam, mas falam sem pensar. Esquecem-se que “quem fala o que quer, ouve o que não quer, como diz o ditado. Se disparam palavras como metralhadoras, deveriam estar melhor preparadas para enfrentar munição dos que também defendem com veemência suas opiniões, assim como a baixar a guarda. Mas o que se vê, em geral, é mais artilharia pesada.

Não custa ser gentil com as palavras, elegante na abordagem e previdente quanto aos efeitos danosos de certas discussões. Há aquelas que de antemão se mostram perigosas ou inúteis, como sobre futebol, política e religião. É preciso tato para não ferir nem se deixar ser ferido. É preciso entender que sinceridade não pode ser grosseria. E que verborragia arrastada e discursos agressivos não fazem vencedores. Pelo contrário, fazem perdedores que ganham arrependimento.

Dialogue por ideias, argumente por amor, converse para achar o fio da meada que você perdeu ou nunca encontrou – discuta, enfim, seja pelo que for -, mas sempre com respeito e para acrescentar. Não entre numa discussão para ganhar. Você ganha se souber sair dela no momento certo, mostrando seus pontos de vista calmamente. Aliás nem entre nela se não tiver serenidade e tempo suficientes para encará-la sem alterar o seu equilíbrio emocional.

Uma das vantagens de envelhecer é que, diante das muitas reviravoltas da vida que testemunhamos, a gente vai abrindo mão de certezas. Nossas prioridades mudam e a tranquilidade passa a figurar dentre as principais. Passamos a não ligar para as opiniões alheias sobre nós ou a condenar sumariamente as que não nos dizem respeito, considerando somente aquelas que venham somar. Passamos a relativizar fatos e sentimentos em prol do que importa de verdade. Ter razão deixa de ter razão.

De que adianta suar frio, o coração palpitar, o corpo tremer, as palavras saírem em descompasso com os sentimentos? Isso só vale por amor, nunca por raiva e arrogância. Se você já sentiu os sintomas físicos e psicológicos de uma discussão, virtual ou pessoalmente, sabe que é melhor escolher as palavras, trabalhar a respiração (sim, inspirar e expirar profundamente faz milagres…), não carregar no tom. Fale, mas pense, ouça, silencie e mude de opinião se quiser.

A única razão a que você deve se apegar é a de ser feliz.

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Nadja Bereicoa
Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás). Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia. Como diz o verso de um dos meus poemas, "Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer...".

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