Perdoar é terapia que cura e engrandece

Imagem de capa: Billion Photos, Shutterstock

Perdoar faz parte de um processo transformador de terapia, que cura e engrandece. Não à toa essa nobre palavra deriva do latim perdonare – de per, “para”, mais donare, “doar”. Doa-se o que se tem de melhor, especialmente a esperança, para que a dor um dia passe e a decepção ensine. Quem perdoa se cansa de sofrer e lamentar o que lhe fizeram de ruim, escolhendo aprender ao invés de se martirizar com o passado. Quem perdoa quer viver o presente e seguir de modo diverso, se possível melhor do que antes.

Das decisões que podemos tomar durante a vida, o perdão é das que mais libertam. Ele deixa a alma leve, sem o peso de sentimentos ruins como a raiva. É a maior prova de amor-próprio que podemos dar, pois é sublimando o que é negativo que aprimoramos o nosso espírito e preservamos a nossa saúde mental e física. Ao contrário, alimentando a dor, ressentindo-a, nossas vidas estagnam ou se deterioram e até adoecemos.

Nossa tendência natural é pensarmos em retribuir na mesma moeda ou até de forma pior a quem nos prejudicou. Somos estimulados a isso num mundo em que o perdão é considerado um ato de fraqueza, enquanto a vingança é coroada como heroísmo, justiça pelas próprias mãos. Parece imperar a Lei de Talião, que vigorava na antiguidade muito antes de Cristo, e era simbolizada pela expressão “Olho por olho, dente por dente”. Muitos preferem se igualar ao ofensor, praticando o mal, do que se diferenciar pelo bem.

Quando a gente rumina o que é ruim, se maltrata mais do que aos que nos magoaram. Estes costumam se blindar com forçadas amnésias ou por subestimarem seus atos. Quando têm noção deles, não sentem a dor latejar como quem foi atingido. Em algum momento, porém, seus erros pesarão sobre suas consciências. Elas ou a vida se encarregarão de puni-los, na medida das consequências que causaram e do arrependimento que carregarem.

Lembro-me quando reagi a um assalto vinte e cinco anos atrás e o ladrão, já imobilizado no chão por policiais, foi chutado por eles. Fui criticada com frases raivosas ao defendê-lo, apesar dos hematomas no pulso após meu relógio ser violentamente arrancado. O assaltante, que tinha acabado de completar dezoito anos e cometera seu primeiro crime, me pediu desculpas chorando na delegacia. Foi condenado a quatro anos e meio de prisão, mas antes da sentença eu já o havia perdoado. Perdoar não é querer o ofensor impune.

Depois disso fui agredida de outras formas – não violentas fisicamente, porém bem mais sentidas – e tenho buscado o perdão para curar sequelas e obter crescimento pessoal. Meu psicoterapeuta, que pratica a terapia do perdão dentre outras técnicas da abordagem sistêmica, considera que os atos danosos são imperdoáveis e não devem se repetir. Para ele, apenas quem os comete pode ser perdoado, se houver arrependimento de sua parte e interesse dos envolvidos em reconstruir suas relações em novos patamares, mais saudáveis.

Em maior ou menor escala, todos já ferimos alguém, com palavras, atitudes e negligências. Costumamos ser exigentes e inflexíveis com quem mais convivemos e amamos, como se a intimidade e o amor fossem salvo-condutos e não precisassem de cuidado. Não aceitamos os defeitos alheios, mas não corrigimos os nossos. O processo de perdoar e de ser perdoado, o que inclui o autoperdão, nos faz refletir sobre como temos agido e o que temos de mudar. Se houver necessidade de perdão recíproco, por que não dar o primeiro passo?!

A depender da gravidade do fato, o perdão pode levar meses, anos, décadas ou nunca ocorrer. Vai depender da importância do outro em nossa vida. Quando não for possível conviver como antes, mesmo perdoando, pode ser inevitável um afastamento temporário ou, se não houver vínculos, definitivo. Se não conseguirmos perdoar certas pessoas, podemos ao menos controlar nossos pensamentos para não lhes desejar mal, caminhando para um dia sentir que o perdão veio silenciosa e naturalmente, sem percebermos.

Perdoar não nos faz esquecer ou voltar a confiar em alguém (aliás, não se deve confiar plenamente nem em si…). Perdoar nos faz lembrar sem dor, atenuando uma cicatriz que sempre marcará nossa história. Perdoar é querer fazer um outro pacto com a vida e ter um novo tipo de crença nas pessoas – com mais tolerância, menos expectativas e um grande desejo de paz.

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Nadja Bereicoa

Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás).
Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia.
Como diz o verso de um dos meus poemas, “Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer…”.

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