O amor se constrói com o tempo

Imagem de capa: gpointstudio, Shutterstock

Foi aos poucos, foi no dia a dia, na rotina. Não foi amor à primeira vista ou aquela paixão arrasadora. Não foi imediato, mas nem por isso foi menos importante. Eu gostei de você, da sua risada rouca e da maneira como segurava a caneca de Chopp. Gostei do seu humor peculiar e do cabelo despenteado. Gostei da combinação de calça jeans com Havaianas e da camiseta velha e desbeiçada. Gostei do perfume leve e do olhar profundo. Gostei da pegada firme e do beijo molhado. Mas os sentidos eram todos muito superficiais, entende? Não era amor. Não era mesmo, mas sua-voz-de-veludo-que-lambe-as-pessoas salivava em mim.

Não havia compromisso, veemência, complexidade ou dependência. Era causal, uma brincadeira divertida e despretensiosa. Era um jogo onde os dois ganhavam e o prêmio era dividido em partes iguais. Beijos, amassos e muitas noites em claro embolando o edredom. Confesso que nossa aproximação foi puramente carnal. Éramos pele, carne e suor. Não haviam palavras de amor mas sobravam línguas e gemidos. Não havia saudade, era tudo tesão. Nossos corpos se entendiam melhor do que nossa mente e isso era suficiente. A felicidade estava no detalhe dos toques e desejos. Éramos bichos agindo por puro instinto.

Mas com o tempo aprendi a ver que você tinha manias incorrigíveis e sempre me ligava depois das 20 horas. Quando o telefone não tocava passei a sentir medo de você ter ligado para outro corpo que não o meu, medo de ter caído no esquecimento, de perder você. Comecei a sentir os primeiros sintomas de amor, mas ainda não aceitava o fato. Logo notei que você também já me olhava com outros olhos e nossas conversas sempre breves e objetivas se estendiam por horas. As pegadas sacanas já dividiam espaço com os carinhos gentis.

Fui abrindo a guarda e permitindo que o sentimento dominasse cada espaço. Com detalhes e aprendizado fui descobrindo que existia um homem além do corpo que eu já conhecia tão bem. Existia inteligência, coragem, atenção, bravura e muito charme. Passei a admirá-lo, antes mesmo de assumir o amor. Você foi se mostrando tão completo e profundo que não foi mais possível nadar em mar raso. Mergulhei de cabeça assumindo o risco de afogamento. E o que eu descobri foi um lindo coral. Você se mostrou o abrigo que eu sempre procurei e é no seu abraço que eu escolhi morar. O amor se constrói com o tempo e você foi engenhoso, cada tijolo foi colocado no seu devido lugar e colamos tudo com suor e saliva.

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Monika Jordão
Atriz, escritora e paulistana. Acredita que o papel reflete mais do que o espelho. Apaixonada por livros, futebol, tequila, café e Coca-Cola. Buscando sempre o equilíbrio emocional e os amores inesquecíveis.

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