Estamos sempre de passagem

Imagem de capa: Microgen, Shutterstock

A Páscoa – passagem em hebraico – acontece todos os dias em nós, se permitirmos. Estamos sempre de passagem, passeando por lugares, pessoas, fases, sentimentos e momentos que nos fazem bem ou mal. Cabe-nos escolher – do medo à coragem, do egoísmo à solidariedade, do ódio ao amor, da tristeza à alegria… A forma como atravessamos nossas etapas será determinante para definir onde chegaremos e se iremos nos aprisionar ou nos libertar.

Você pode ser cristão ou não. Pode acreditar em ressurreição ou em reencarnação. Pode até não ter religião e achar que tudo acaba com a morte, o que não é o meu caso. Penso que estamos na Terra também de passagem… Mas ainda que você considere esta vida única (e é, pois nenhuma outra possível será igual…) deve, por isso mesmo, se deixar viver. Não morra em vida.

Não tentar, estagnar no mais ou menos e entregar-se à acomodação da infelicidade, por achar que esta é sina ou protege, não dá trabalho, é morrer aos poucos e por uma causa nada nobre. Então, sempre que preciso, recomece, reinvente-se. Dê o primeiro passo em um novo caminho que decidir trilhar, por mais difícil que seja caminhar. Sua alma lhe agradecerá.

Todos os dias a gente decide quem vai se tornando e o que fazer para transformar o mundo ao nosso redor, se vai subtrair ou somar, se vai se abrir ou se fechar, se vai doar ou apenas guardar… A gente decide como encarar os fatos indesejados que nos atropelam de repente. Decide, por exemplo, que o fracasso não é uma derrota, mas uma tentativa que não deu certo, rumo ao êxito.

Cultivar a dor além do ponto, remexer e afundar feridas que já fecharam é uma maneira de recusar-se a viver. Precisamos respeitar as nossas cascas que secaram e seu tempo de caírem naturalmente. Se restarem marcas, quando as olharmos sem a opção por sofrer, estas nos lembrarão do que vivemos e não queremos repetir. Aí renasceremos.

Renascemos de muitas maneiras: em um abraço caloroso, um pôr do sol indescritível, uma viagem dos sonhos, uma nova atividade física … um novo jeito de ser. Eu renasço quando vejo o que crio ter vida própria, se fluidificando no ar feito energia boa. Como quando vejo meus filhos crescendo, com opiniões e escolhas cada vez mais firmes e independentes. Ou quando o que penso ganha forma e se perpetua em um texto ou um poema, fazendo outros pensarem.

A gente renasce quando crê que pode superar, mudar, aprender, ser melhor, de acordo com a nossa capacidade de compreensão, bondade, resiliência… Para cada uma de nossas várias mortes cotidianas – decepções, mancadas, frustrações, perdas -, a gente pode ressurgir mais forte e vivo, uma pessoa totalmente diferente até.

A gente renasce quando envelhece. Se soubermos, passamos pelo tempo – em geral avançando mas também retrocedendo para entender o que se foi -, deixando não apenas que ele nos transforme mas também transformando-o. Um dia se é criança, para depois virar adolescente, jovem, velho e então, quem sabe, voltar a ser criança (uma outra…). A passagem do tempo marca, acima de tudo, as nossas mudanças internas.

Os anos vão mas muitas lembranças ficam, enraizadas, às vezes nos prendendo demasiadamente. Não somos aqueles que já fomos, nem muito menos aqueles que sonhamos ser. Temos que nos desapegar do passado, tenha sido ele positivo ou não, e não ter ansiedade pelo futuro. Somos o que somos no presente e é este que devemos viver.

Nossas transformações, nossas passagens, são nossas Páscoas pessoais, que podem acontecer a todo instante.

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Nadja Bereicoa

Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás).
Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia.
Como diz o verso de um dos meus poemas, “Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer…”.

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