Era pra ser só um dia cinza

Imagem de capa: Aleshyn_Andrei, Shutterstock

Eu estava sentado num banco de praça. Quem, em pleno século vinte e um, senta em banco de praça? Eu estava ali, o celular guardado no bolso, os olhos observando o movimento e a cabeça com mil pensamentos. Era um daqueles dias que a ansiedade implora por uma pausa, sabe como? Sentei no banco que ficava embaixo de uma grande árvore. Eu podia florear dizendo que era um flamboyant, ou uma figueira, mas a verdade é que só sei que era uma árvore grande. Esses nomes bonitos, peguei no Google.

Inspirava e expirava lentamente, numa tentativa de diminuir o ritmo e acalmar o caos. Ansiedade transforma o corpo num caos, contorcendo músculos, roubando o ar e acelerando o coração, como se ele precisasse bombear sangue numa velocidade alucinante, para entrar no livro dos recordes. Então eu sentei no banco da praça, celular no bolso, cabeça a mil e respiração cuidadosamente controlada. Sentia o sangue parar de correr, gradualmente. Gerava um alívio danado.

Eu estava na metade do meu suspiro profundo quando te vi. Você vestia um jeans, um tênis branco e uma blusinha clara – e era a mulher mais linda e bem vestida do mundo. Carregava nos olhos umas preguinhas de riso e, nas mãos, uma bolsa e um guarda-chuva vermelho. Olhei para o céu, buscando a chuva. O dia estava naquele cinza que irrita, sabe? Um céu sujo, só. Sem finalidade alguma. Não era daqueles cinzas de vou-chover-a-qualquer-momento. Mas te fez carregar um guarda-chuva vermelho e teu excesso de zelo consigo mesma me roubou um sorriso.

Já não era mais eu ali, ansioso, sentado num banco de praça, tentando calar o peito que pulsava como se não houvesse amanhã. Agora era eu, sentado num banco de praça, te admirando apaixonado, tentando calar o peito que pulsava como se te amasse para sempre, numa urgência desconhecida.

Você me viu e sorriu. As preguinhas do teu olho sorriram em sintonia. Eu acenei a mão. O tom do cinza me traiu, debochando gostosamente da minha cara. Foi o tempo de você sentar-se ao meu lado e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Você abriu seu guarda-chuva vermelho e me acolheu.

Agora era eu e você, ali, naquele banco de praça. Embaixo de chuva, embaixo da árvore e embaixo de um guarda-chuva vermelho. O coração pulsava como se te amar não fosse suficiente. Teu sorriso continuava nos olhos. Era eu e você, metade secos, metade encharcados de chuva, que caiu de um céu cinza que não ameaçava chover. Eu quis te roubar um beijo, mas paralisei. Você — não sei se quis — me roubou também. Já não era mais eu, sentado, ansioso, num banco de praça. Agora era eu, sentado, apaixonado, meio seco, meio molhado e todo, todinho seu.

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Mafê Probst
Engenheira, blogueira, escritora e romântica incorrigível. É geminiana, exagerada e curiosa. Sonha abraçar o mundo e se espalhar por aí. Nascida e crescida no litoral catarinense, não nega a paixão pela praia, pelo sol e frutos do mar.

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