Sobre pessoas que curtem e compartilham posts em redes sociais sem nem saber do que se trata

Imagem de capa: ESB Professional, Shutterstock

O mundo virtual é um mundo de aparências, semelhante ao livro que as pessoas carregavam consigo antigamente sem nunca o ter lido.

Estava ajudando uma pessoa a cuidar de seu site e tinha acesso às estatísticas. Vi que essa pessoa tinha compartilhado um artigo no Facebook, que teve boa repercussão, com mais de 5 mil pessoas curtindo e compartilhando o post. Pois bem, fui ver os números e me assustei: apesar do post ter sido tão curtido e compartilhado, o artigo no site tinha menos que 800 visualizações. Ou seja: a grande maioria das pessoas curtiu e compartilhou sem nem sequer abrir o artigo.

Outra experiência que fiz sem querer: publiquei algo, compartilhei no Facebook e depois, mexendo no site, apaguei acidentalmente o artigo e nem percebi. Quem então clicou no link compartilhado caiu em lugar nenhum, já que a página não era encontrada. Mesmo assim, mais de 200 pessoas curtiram o post, umas 15 pessoas compartilharam e alguns até comentaram algo que nem existia.

Questionei esse fenômeno, refleti sobre ele e percebi que não se trata de algo novo. Isso sempre existiu. O que mudou foi somente a forma: hoje se compartilha e se curte coisas na internet sem ler, antigamente eram os livros (de preferência bem grossos!) que se carregava embaixo do braço sem nunca o ter lido.

Recordo-me de um amigo padre, diretor do seminário de sua diocese. Fui visitá-lo uma vez, quando ainda era bem jovem (em torno de 17/18 anos), e passei o final de semana com ele. Sempre que o visitava, eu costumava acompanhá-lo em suas atividades na paróquia e na diocese. Naquele final de semana, ele cuidava de um grupo de homens jovens que desejavam se tornar seminaristas. A função de meu amigo era a de avaliar a aptidão de cada um dos aspirantes.

Entre eles, havia um rapaz e eu, ingênuo, acreditei seriamente que aquele sim seria apropriado para ser padre: ele era extremamente comunicativo e parecia gostar de ler, pois carregava consigo um livro bem grosso de filosofia. Comentei isso com meu amigo e ele deu um sorriso sem graça, dizendo que, entre todos os candidatos, esse era o que ele achava menos apto a se tornar sacerdote. Perguntei o motivo e ele me disse para tirar minhas próprias conclusões, recomendando que eu conversasse com ele sobre o livro que ele carregava consigo. E foi o que fiz: fui lá e puxei conversa com o rapaz sobre o livro, não demorando muito para eu perceber que ele nunca havia lido nenhuma frase daquela obra, exceto o título. Entendi então o que meu amigo quis dizer: aquele rapaz não apostava no aprender e saber, mas em sua vaidade, fazendo de conta que aprendia sem realmente aprender, que sabia sem realmente saber e que estava mais preocupado com a aparência do que com a essência. Em outras palavras, ele simplesmente era imaturo e vaidoso demais para a tarefa que se propunha.

É o mesmo fenômeno que podemos observar hoje, a mesma imaturidade e a mesma vaidade, só que os “livros carregados, mas nunca lidos” se tornaram “posts em redes sociais curtidos e compartilhados – e muitas vezes até comentados, mas nunca lidos”. Muita gente lê só o título, olha talvez a imagem e quem é o autor (se for um autor famoso/respeitado, aproveita-se para se bronzear no sol dele!) e compartilha o post para enfeitar sua linha de tempo, tentando passar a impressão de que leu as coisas que compartilha (ou curte), gente que tenta se mostrar mais sábia e mais instruída do que realmente é, mais preocupada com a aparência do que com conteúdos (vaidade) e muitas vezes acreditando na farsa e enganando a si mesma (imaturidade).

O problema desse fenômeno é que ele não é nada inofensivo. Além do risco de perder qualquer credibilidade, quem compartilha algo sem conhecer o conteúdo pode estar se deixando instrumentalizar, por exemplo, por gente esperta que usa isso para espalhar informações falsas. Quando essa pessoa tem uma grande rede de “amigos”, quando essa pessoa tem fãs que acreditam no que ela publica e terminam agindo da mesma forma, o conteúdo “desconhecido” vai se espalhando cada vez mais, com consequências imprevisíveis.

O que recomendo nesses casos é o mesmo que me recomendou meu amigo: observe essas pessoas e tire suas próprias conclusões. Quando alguém compartilhar algo e você tiver a impressão de que o que foi postado não foi lido, puxe conversa com a pessoa sobre o conteúdo e você verá rapidamente quanta gente anda por aí, por redes sociais, com um “livro grosso embaixo do braço”. E por que é importante “desmascarar” essas pessoas? Porque isso traz a verdade à tona e lhe poupa tempo e energia, pois você então saberá que não precisa discutir com essa pessoa ou levá-la a sério, já que ela não se interessa realmente pelo conteúdo e só está preocupada em viver sua vaidade imatura.

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Gustl Rosenkranz
Blogueiro brasileiro residente em Berlim.

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