Peço ao mundo, empatia. Deixe-me viver o meu luto…

Imagem de capa: PhotoMediaGroup, Shutterstock

Eu tentei me manter forte. No meio de toda angustia entalada na garganta não permiti que uma lágrima caísse dos olhos, enquanto tentei me convencer mais uma vez da mulher gigante que fiz crescer em menos de 1m60 de altura. Os olhos voltados para trás tentaram me mostrar que assim como tantas outras vezes passou, essa também passará. Mas tentar não enlouquecer foi encurralar o espírito intenso demais para não sentir. Senti o peito doer. E me vi embalada à vácuo, tamanha dificuldade para respirar. Repeti diversas vezes que algo melhor sempre está por vir, e que não há motivos para tentar convencer alguém do meu valor, que isso é, por si, não se reconhecer e tentar convencer a mim mesma do quanto valho. Dormi cansada como se tivesse encarado uma rotina de 12 horas de trabalho ininterrupta, só pra não ter de me encarar acordada tentando disfarçar a dor. Acordei sem saber se conseguiria dar um passo fora da cama. Senti o vento pelo corpo com tamanha força e tirei disso diversas reflexões, ao diminuir a velocidade percebi o quanto senti-lo pode anestesiar o corpo, por um instante até o sofrimento. O tempo passou arrastado, pra me lembrar de que ainda tenho a mim e que preciso me agarrar para cair com segurança no precipício em que me atirei de olhos fechados e com total confiança. Sei, eu deveria ter me atentado quando ele me disse “você não sabe muita coisa sobre mim”, foi o primeiro sinal de alerta que eu inocentemente ignorei. Deveria ter dado tempo para conhecer o mínimo e digerir, ponderar, e avaliar se aquilo poderia se encaixar à mim. Deveria não ter ido, mais uma estúpida vez, com sede demais ao pode. Deveria ter deixado que ele não só notasse que tipo de mulher eu sou, mas também notasse que me perder seria talvez a maior perda da sua vida. Ou não. Deveria não ter pedido o primeiro beijo, nem dado sinal verde, porque na verdade quis provar que sou mulher de atitude, a mim mesma. Deveria ter feito tanta coisa e agido de tantas formas, mas não fiz e nem agi. Deveria não ter sido eu, afinal. Mas escolhi ser.

O choro enfim me veio. Não precisei de esforço algum para deixá-lo sair. Ele me agradeceu. Arranquei um angustia sufocante do peito. As lágrimas inundaram meu rosto com tamanha força, mas não emiti um som se quer. A dor escorreu feito lava, senti meu colo ferver. Ele não!!! É só o que consigo pensar. Porque como diz o ditado, até o mel mais doce azeda num recipiente sujo. Azedou. Toda a sensibilidade, atitude, as rosas, os risos e sorrisos, os bilhetinhos escritos à mão, as pipocas e os filmes interrompidos, os olhos nos olhos, a química, a conexão jamais antes experimentada, os sentimentos à flor da pele, os beijos, os corpos entrelaçados num êxtase sem igual, os cafés, as mãos dadas. E o coração não lamenta o fim, mas a possibilidade de tudo não ter passado de um infinito de ilusões maquiadas.

Nesse momento, eu ignoro toda maturidade emocional que os tropeços anteriores me trouxeram. Ainda não consigo me levantar disso e sair andando com um brilho estupendo. Não consigo canalizar a raiva, a decepção… Mantenho-me estupefata. Estou sofrendo como se o mundo tivesse desmoronado e não houvesse caminhos alternativos para correr. Me permiti o luto. Então, só o que peço ao mundo é um pouco de empatia.

Me deixe chorar como se ele fosse o amor da minha vida. Deixe-me lamentar a perda como se eu fosse pouco demais para ele. Me deixe afundar o poço mais cavado. Deixe-me tremer o corpo e sentir a célula mais encavada. Me deixe fundir-me em mim, como se essa fosse a dor mais demente do mundo, ou da minha história. Estou exausta. Deixe-me descansar no meu travesseiro gélido de prantos ecoados. Me deixe não dormir direito, me deixe levantar arrastada com olheiras imensas ao redor dos olhos abatidos. Deixe-me escancarar o martírio. Me deixe prantear as lembranças de tudo que foi ouvido e vivido. Deixe-me sentir demais. E ser infinita no suplício até que eu decida estar curada.

Talvez seja tão bem resolvida com meu passado porque me permiti sentir, desde o melhor dos sentimentos até o mais
desprezível. Como torcer o tubo do creme dental para aproveitá-lo até a última gota. Amanhã pode ser que isso passe, ou ao menos amenize. Já não sinto o peito arder tanto quanto no início desse desabafo. Isso é um bom sinal. Mas sei que terei minhas re(caídas). Significa que estou tentando.

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Ana Carolina Santos
"Fisioterapeuta por formação e de coração; Virginiana com ascendente em Peixes; Cantora por hobbie; Apaixonada por Teatro Mágico e fotografia. Romântica, sensível, e apimentada. Menina mulher, de uma Fé inabalável."

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