Nostalgia de Primeiro de Abril

Imagem de capa: pathdoc, Shutterstock

Que nostalgia de quando mentir era uma alegre brincadeira de Primeiro de Abril! Atualmente a coisa é séria, triste. Há tanta farsa que todos os dias parecem ser dedicados à mentira e muitos acham desvantajoso ser verdadeiro. No Brasil, quem devia dar exemplo ilude e trapaceia para defender altos padrões de vida e distorcidos pontos de vista, lesando não somente pessoas e a economia, mas os sonhos de uma nação inteira. Vivemos em meio a grandes e nocivas mentiras que se tornaram, literalmente, indigestas.

Ouso discordar do genial Renato Russo, que cantava “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”. Para mim, quem se autoengana é porque quer. Sofre sim, mas não se decepciona. Pensa que é melhor assim por um tempo, pra afastar mais sofrimento e evitar embates com os outros. Assumir uma escolha pessoal, principalmente se isso implica em se desviar do caminho já percorrido, pode ser bem difícil. Exige força de vontade, além de sinceridade e autoestima. Sem isso, veste-se a couraça da mentira como proteção, mas por dentro a dor fica a latejar.

É tentador acreditar menos em nós do que nas mentiras que ouvimos: que é melhor ser jovem, bonito, bem-sucedido, engraçado, rico… E aí, remando para subir na crista da onda e surfar com a minoria que se julga maioria, pessoas se afundam num mar poluído de rótulos com embalagens sem conteúdos. Importam-se mais em mostrar o que têm (e o que não têm) do que aquilo que de fato são, escondendo-se por trás de padrões e interesses e mascarando sentimentos. Mentem que gostam não gostando, gostam e fingem não gostar… São as pequenas mentiras cotidianas

Deixamos de mentir apenas para nós e fazemos mal ao outro se despertamos nele interesse ou confiança a partir de características forjadas. Ainda que sem querer ou supostamente para nos proteger, a mentira alheia nos prejudica não apenas quando nos lesa moral e materialmente, mas também se nos tira o poder de decidir e de sentir. Criamos a ilusão de alguém que não existe, além de admiração ou atração infundadas. É assim que paixões, amizades, idolatrias e parcerias profissionais se desmoronam.

Os iludidos sabem que estão num show de ilusionismo, depositando expectativas demais em quem ilude, mesmo com as pistas dos truques à mostra. A desilusão nada mais é do que acordar de uma cegueira temporária para a mágica em que se quis acreditar. Devíamos agradecer por ela, que nos permite vivenciar desconstruções de pessoas e histórias para nos reerguermos sobre pilares sólidos. Desiludir-se permite conhecer-se melhor e tornar-se próximo da verdade possível.

A mentira tornou-se eloquente, com manipulações ardilosas para propagar ideologias e crenças, como se os fins explicassem os meios. Abusa-se da criatividade a ponto de, numa conveniente amnésia, crer nela e fazer com que outros também. Para enriquecer, envaidecer e ter poder, mentir atrai mais e mais mentiras, incluindo suas vertentes sutis: hipocrisia e falsidade. É algo natural para quem pensa ter um propósito maior, quase messiânico, ao se passar pelo que não é (honesto, fiel, democrata, moralista…). O mitômano é um megalomaníaco com complexo de inferioridade.

No Brasil, mentir deixou de ser desvio de caráter individual para tecer uma complexa teia de conluios e intrigas – a mentira institucionalizada -, em que declarados inimigos são cúmplices enquanto for interessante acobertarem-se. Mas a mentira tem perna curta. E, acrescente-se, rabo preso. O lado bom dessa história é que temos visto que quando um mentiroso cai, leva junto outro e outro, até que todos se vão em inevitável efeito dominó.

A filosofia, a história e a vida nos mostram diferentes tipos de verdade. Há aquelas relativas, a partir de diferentes versões, visões e vivências. Com a idade, nossas crenças mudam. Podemos ou não acreditar em Deus, astrologia, alma gêmea… e ter apenas uma noção diferente da verdade, sem que isso nos coloque ao lado do bem ou do mal. Algumas verdades, porém, são absolutas, incontestáveis, e exigem de nós atitudes boas ou ruins e um posicionamento contra ou a favor da mentira.

Não existem meias-mentiras. É mentira tudo o que se fala como verdade não o sendo ou sem acreditar e sentir. A intenção e a consequência definirão a gravidade do ato de mentir, considerado até social. Pode ser atenuante querer evitar que alguém fragilizado sofra demais com a verdade, mas a mentira cruel – para obter vantagem e enganar o outro – tem todos os agravantes e é das piores formas de maldade.

Se a falsidade ou a mentira estiverem ao seu redor te magoando e fazendo o mal, afaste-se. Não ligue se está fora dos padrões, não se envergonhe do que sente, não se esconda por trás de convenções. Respeite as suas particularidades, seja transparente, olhe no olho e aposte na sinceridade para ser feliz. Tenha coragem de ser quem você é de verdade!

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Nadja Bereicoa

Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás).
Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia.
Como diz o verso de um dos meus poemas, “Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer…”.

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