Ela pediu um café, mas queria mesmo um colo quentinho.

Imagem de capa: zagorodnaya/shutterstock

Eu jamais deixaria de notar aqueles olhinhos nipônicos – que me olhavam sem ver – quando ela entrou na cafeteria da esquina na rua 15 com a 14. Parecia ter fugido de uma das histórias do Sparks onde o casal briga e cada um vai para um canto da cidade refletir sobre o ocorrido. Mas quando minhas retinas pousaram sobre aqueles olhos esticados, meu mundo parou, e tudo ao meu redor congelou em preto e branco enquanto ela adentrava aquele lugar toda colorida.

Eu não sabia nada sobre ela. Não sabia das suas vontades. Não sabia se tinha namorado ou se tinha algo mais sério. Não sabia seu nome, nem ao menos onde ela residia. Mas eu já queria morar nos castanhos de seus olhos, chamá-la de “bem”, ter dois filhos morenos, e uma casa no campo próximo ao interior de Recife.

Ela sentou-se na mesa ao meu lado, e novamente, me olhou sem ver. Eu desviei meu olhar para que não a assustasse com a maneira da qual eu a contemplava. Apenas continuei a ler Romeu e Julieta imaginando como eu poderia iniciar uma conversa com a futura mãe dos meus filhos. Nunca fui bom em falar cara-a-cara, sempre morri de vergonha em casos como este. Mas eu precisava vencer este medo se fosse querer casar com ela qualquer dia desses.

Mas imprevisivelmente só como o destino é, ela me sorriu um sorriso capaz de desarmar qualquer exército russo. Gargalhou em voz alta e me perguntou olhando diretamente em meus olhos:

Que homem no mundo lê Romeu e Julieta em uma cafeteria no centro?

Eu juro. Eu jamais tinha visto algo tão perfeito em toda minha vida. Seus olhos me recitavam poesias sem dizer palavra alguma. Suas bochechas rosadas pareciam ter sido feitas à mão. Seu sorriso cativava qualquer rosto triste. Eu juro, ela era – e é – perfeita.

Nossa afinidade veio como borboletas no estômago. Gargalhadas de canto a canto da boca. Uma intensa troca de sorrisos. Simetria perfeita entre os olhos. Ela é apaixonada por Rubel, exatamente como eu.

Então, como um tapa na cara – daqueles que você não esperava levar-,
ela disse que precisava ir embora. Disse que havia passado por ali apenas para conhecer mais um pouco da cidade e que precisava voltar pra sua cidade natal.

Ela não disse onde morava. Muito menos deixou seu número ou disse seu nome. Mas me deu um beijo daqueles que não existem palavras pra descrever o que se sente em tal momento. Sentou-se em meu colo repentinamente e pediu mais um café, mais um beijo, e mais um sorriso.

Se aproximou de meus ouvidos e me disse quase em um tom de sussurro:

-Espero te ver por aí.

Assim ela se foi. Sem deixar ao menos o perfume de seus ombros.

Continua….

Caso eu a encontre por aí novamente.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS





Pedro Ficarelli
Apaixonado pela poesia feminina. Acredito fielmente que o amor seja o infinito que resolveu morar no detalhe das palavras. Muito prazer, eu me chamo Pedro Ficarelli, e escrevo com o único intuito de pôr palavras onde a tua dor se faz insuportável.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here