Deixe o outono te desfolhar

Imagem de capa: Julza/shutterstock

O verão mal terminou e a gente já sente a temperatura amena e um mistério no ar. Que março carregue de vez em suas águas o que não tem razão de ficar e que deixe cair nas calçadas as primeiras folhas do outono de quem quiser recomeçar. A gente se mostrou, se excedeu, dourou a pele, ardeu em brasa e não pensou em nada, porque o calor não deixava. Mas agora, preste atenção, é tempo de transição. Novos ventos começam a soprar…

Vá com calma, escute a sua intuição e o que esses ventos lhe dizem. Veja para onde cada um corre e não necessariamente siga a sua direção. Você pode se deixar levar ou tomar um impulso até o meio do caminho e depois seguir sozinho. Ou precisará contrariar seus rumos e andar na contramão de tudo – dos outros, da moda e da própria razão – , fazendo de bússola o seu coração. Se ele vibrar forte, dê uma chance à sorte e vai ser feliz!

Mas não se esquece também de raciocinar, porque sempre precisamos analisar o que fizemos ou não, para podermos de novo sonhar. Aproveite que o tempo é de desfolhar e mude, se desnude, troque de pele se preciso for. Limpe, esfolie, remove as células mortas e as impurezas que se acumularam nos últimos tempos. Renove-se e, acredite, isso lhe rejuvenescerá.]

Olhe-se no espelho de sua alma e veja o que não deu certo, do que se arrependeu ou porque se machucou. Será que você tentou de verdade todas as possibilidades de crescer, de ser feliz? Inventou, misturou, arriscou e insistiu?! Lembre-se: a felicidade não tem fórmula única, mas a vida nos dá ingredientes e temperos saudáveis, inimagináveis, para criarmos novas receitas para ela, a cada dia. Experimente, sempre, para aguçar seu paladar.

Regra básica para não desandar uma receita é descartar aquilo que lhe faz mal ou cuja validade venceu. Do contrário, azedará, estragará, envenenará tudo o que você tocar. Se magoou ou traiu alguém e isso lhe doeu, arrependa-se de verdade e peça desculpas – se não pessoalmente, ao menos ore com fé ou mentalize a melhor energia que puder, e isso se canalizará para selar o bem entre vocês.

Já se você foi magoado, apunhalado até, eu lhe entendo e lhe digo o quanto é necessário se recolher, deixar sangrar até a última gota. Mas uma hora, pra não adoecer, é preciso dar um basta, parar de triturar e purgar a mágoa e de se vitimizar. Apenas assim você vai cicatrizar e ir adiante, com ou sem quem lhe feriu. Esteja certo de que o perdão lhe ajudará. Mais do que amor ao próximo, ele significará o seu amor-próprio.

Comece perdoando a si mesmo, se fracassou, mentiu, se omitiu, desistiu ou nem tentou. Depois pese o que lhe fala mais alto nesse momento: amor, saúde, amizade, sucesso, paz, sexo, dinheiro…?! Talvez você queira um mix de tudo isso, bem dosado pra não desequilibrar a balança e o juízo. Talvez você precise muito mais de um deles, para compensar que esteve em falta.

O importante é não deixar os erros se repetirem e expurgar o que estiver secando, apodrecendo, morrendo, pra nascer a sua melhor versão. Para isso, esfrie os ânimos, se entregue ao outono, se desapegue, e deixe que ele leve o que se completou, o que não te serve mais ou o que foi efêmero, que nada agregue. Além dos momentos lindos que valem lembrar, ficará o que você mais queria esquecer porque doeu fundo – e, por isso, lhe fez amadurecer. Aquele antigo sofrimento haverá partido e novas histórias terão chegado.

Em sua sutil beleza, o outono cobrirá os nossos caminhos com folhas de vários feitios e tons – verdes, ocres, amarelas, marrons… –, desnudando árvores e toda a nossa sensibilidade. Que ele seja bem-vindo e nos inspire com sua mágica capacidade de transformação.

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Nadja Bereicoa
Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás). Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia. Como diz o verso de um dos meus poemas, "Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer...".

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