Das que correm com lobos

Imagem de capa: Irina Alexandrovna, Shutterstock

fui dormir cordeira e acordei loba.
gaia me chamou pelo útero, saindo do meu ventre e subindo pela vibração que vem da terra.

passei pelo olho do furacão e vi a deusa grande, uníssona, sorrindo pra mim.

ela veio pra me dizer que a terra chama meu ventre pra uivar com minhas irmãs nas noites de lua cheia.

precisamos fortalecer nossa alcateia porque as ameaças vêm de todos os cantos:

há séculos roubam, estupram, arrancam, estraçalham e vendem nossos corpos.

querem nossa carne, mente, nossa pele pendurada numa parede, que

o olho do lobo arranca com força, pedaço por pedaço.

suas patas machucam a história da fecundidade humana,

e se não fosse o bastante ainda apagam nossas pegadas no chão.

lobo-de-cadeia-solitária consegue nos confundir e fazer crer no que não é pra errarmos o caminho de casa.

desde filhotes crescemos acostumadas a ouvir latirem e rosnarem no nosso caminho e nos calamos,

no alto-gritar da noite.

estamos sempre observando todos os lobos que nos caçam e nos veem como um pedaço de carne ambulante,

e desse jeito adultamos aprendendo a cuidar dos próprios pelos, das patas, do próprio modo como andamos e corremos pela mata afora.

aprendemos a uivar juntas e de matilha a gente brinca com o mate-a-ilha.

reconhecemos de longe o cheiro de carniça e comendo a carne podre digerimos lentamente o ódio acumulado de todas as luas em que não pudemos uivar,

livres como nossa própria natureza clama ser.

olho no espelho e minhas marcas no colorido do olho refletem cada coisa pela qual já vi passar cada uma do bando.

não tem como ser loba sem deixar de ser só uma.

éramos cordeiras que juntas eram caçadas,

mas hoje eu senti uma vibração e nela uma voz transcendental mandou os lobos correrem de volta pras tocas.

algo aconteceu e nosso sangue que escorre de lembrança ancestral não será mais derramado em vão.

que saibamos revelar nossos instintos, botar as garras pra fora com essa força única geradora que vem da terra e nos põe a correr,

todas nós.

porque a partir de agora a nossa matilha não mais foge,

mas

sim

caça.

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Thaís Amaral

Thaís Amaral tem 22, mora no interior de SP e publica os murmúrios de seu mar de dentro no blog Sereia no Aquário (sereianoaquario.wordpress.com).

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