Choro, chuva que lava e alivia

Imagem de capa: Pornanun K, Shutterstock

Nascemos chorando, pelo corte abrupto, pela perda do útero, pela luz revelada, por ganharmos a vida. Em nossos primeiros anos, chorar era a melhor forma de pedir atenção e amor ou de comunicar e conhecer os nossos sentimentos. No entanto, adultos, passamos a valorizar somente o riso na busca da felicidade, sem nos darmos conta de que o choro é algo imprescindível – por dor ou tristeza, emoção ou beleza.

Como uma chuva necessária e torrencial de verão, que chega para lavar a alma e aliviar o peito, o choro pode retirar de nossos ombros um peso injusto que carregamos sem querer e, muitas vezes, sem saber o porquê. Feito milagres, de repente, ou conquistas do tempo, pensamentos começam a clarear as nossas espessas e cinzentas nuvens de sentimentos e o choro – como água redentora do céu – termina por dissipá-las. Assim escoam-se culpas, mágoas, desilusões…

Chorar não é somente o fruto compulsivo de desespero e de desesperança, quando os nossos olhos, cegos, transbordam em tsunamis avassaladores. Nesse caso – já rompendo o limite entre a sanidade e a loucura, a saúde e a doença – precisamos da ajuda urgente de uma força-tarefa (onde sejamos, de preferência, os comandantes) que nos faça emergir, sobreviver ao naufrágio e voltar a navegar em mares tranquilos. Só então ressurgiremos em terra firme, equilibrados e muito mais resistentes.

Seja por um sofrimento ou um revés, mas também pelo enternecimento de uma linda lembrança, chorar (de verdade, não por manha ou chilique) não nos torna fracos. Ao contrário, pode nos fortalecer e fazer crescer, especialmente por nos tornar íntimos de nós mesmos, os nossos melhores acalentadores. Ainda que às escondidas, sobre o travesseiro ou sob o chuveiro, ou intimamente compartilhado, nosso choro pode nos fazer aceitar o que passou e dar valor ao que ficou, para aguardarmos o que está por vir com olhar renovado e espírito purificado.

Há épocas em que ficamos mais propensos às lágrimas, tal qual ´manteiga derretida`, como se definiu minha irmã mais velha após ler uma poesia minha. A maturidade aparentemente nos fragiliza diante da finitude da vida, mas no fundo alarga sobremaneira a nossa capacidade de percepção, a nossa sensibilidade, o nosso sexto sentido em relação a tudo o que nos toca e nos choca no mundo. Talvez porque estejamos bem mais perto de Deus…

Sempre fui chorona, apesar de adorar dar boas gargalhadas. Na adolescência e juventude, chorei por medo, insegurança e motivos comuns à idade. Atualmente, choro devido a hormônios, perdas, decepções ou quando escrevo sobre sentimentos caros para mim. Como numa catarse, várias lágrimas já brotaram à medida que um texto inteiro nascia (ironicamente não neste…). Não eram lágrimas convulsas, como já as tive em momentos de tristeza, mas comovidas, serenas, de quem reencontra alguém que não vê há anos.

Choramos por amor, por solidão, por felicidade… Choramos pelo nascimento de um filho, pela morte de alguém querido, por uma crise no casamento, pela sensação de liberdade… Se nossos olhos brilham úmidos, por que travar a emoção e deixá-los secos, turvos? Nossas lágrimas são a expressão do mistério e da dor de viver, mas também de sua alegria e encanto. Como gotas de orvalho nas flores, pingos de chuva na janela ou uma forte tempestade de raios que assusta e depois refresca, limpando o céu e trazendo de surpresa um lindo arco-íris.

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Nadja Bereicoa

Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás).
Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia.
Como diz o verso de um dos meus poemas, “Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer…”.

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