Viagem para dentro de si.

Imagem de capa: GaudiLab, Shutterstock

Ela faria uma viagem rápida, dessas que duram, no máximo, um ou dois dias. Estava tudo pronto. Ou melhor, tudo o que era dela, toda a bagagem estava pronta. Menos ela.

Olhou para a casa sentindo a falta que faria. Teve um sentimento de pena das coisas: pena da cama vazia, da televisão desligada, do chinelinho de quarto esquecido ao lado da cama, da penteadeira cujo espelho não refletiria o seu rosto, por um ou dois dias. Uma última olhadela no espelho lhe devolveu a sensação de que tudo ali era seu. E tudo ali ficaria sem dona, até que ela voltasse. Estava tudo certo.

Porque certo e necessário é o sentimento de pertencer às coisas e às pessoas que nos pertencem. O pertencer é recíproco. Na alma das coisas existe o sentimento de que tais e tais coisas nasceram para ser da gente. É por isso que o nosso travesseiro é o melhor do mundo – porque acreditamos que ele foi feito para nós. É por isso que a nossa cama é a mais macia – porque acreditamos que ela tem a densidade exata para o nosso peso. É por isso que a nossa toalha de banho nos envolve por inteiro – porque acreditamos que ela foi feita sob medida para o nosso tamanho. É por isso que o nosso chuveiro faz a melhor ducha – porque acreditamos que ele lava o corpo e a alma. É por isso que a paisagem da nossa janela é tão preciosa- porque acreditamos que precisamos vê-la diariamente. É por isso que a nossa casa é o lugar mais aconchegante da terra- porque acreditamos que não há melhor lugar para nós do que aquele que guarda a memória das nossas preferências individuais. Tudo é uma questão de crédito. Até que, na mesa do café, encontrou um bilhete. No bilhete estava escrito assim: “Aconselho você a completar o tanque do carro; deve caber uns 10 litros, apesar de estar marcando cheio.” Não tinha assinatura. Nem tinha “vai com Deus”. Não tinha uma recomendação para que não corresse excessivamente. Também não tinha “eu te amo”. Muito menos “você me fará uma falta daquelas”. Mas tinha o conselho para completar o tanque do carro, no qual deveria caber uns 10 litros, apesar de estar marcando cheio.

Foi só isso. E isso disse tanto. Porque na literatura como na vida, muitas vezes o que não se diz tem mais força do que aquilo que foi dito. A partir dali o gosto do café se misturou ao gosto da gasolina. O pão teve sabor de pneu. A manteiga ganhou uma vaga lembrança de óleo queimado. De repente, a normalidade das coisas ficou para sempre perdida. As coisas em volta lhe pareceram hostis. Ela que tinha mania de arrumar todos os quadros tortos da parede, teve a percepção de que a vida estava torta. Tudo lhe pareceu mal enquadrado. O bilhete nas mãos tornou-se ameaçador como uma multa de trânsito. E qual fora a infração cometida? Tentou identificar por qual código estava sendo multada. Qual fora o erro que cometera? Em que trecho do caminho se perdera? Leu de novo, desalentada, mas ainda assim decidida a absorver o que fosse inteligível. Saiu de casa e parou no posto de combustível mais próximo. Disse para o frentista: – complete o tanque, deve caber uns 10 litros. Coube um pouco mais: – 12 litros.

Ela era obediente. Sempre fora. Aprendera a obedecer muito antes de questionar. Com pesar, verificou que o painel do carro marcava tanque cheio, mas o tanque não estava cheio. Havia um vazio no tanque. Como tudo na vida, o tanque do carro podia mentir. Na programação eletrônica, havia uma folga entre o aparente e o real porque o sensor só registra o espaço vazio a partir de uma determinada marca. Na programação eletrônica o que parecia pleno estava parcialmente incompleto. Assim como os carros, são as pessoas: a comparação foi inevitável. Entre a saúde e a doença, seja física ou emocionalmente, há um período de superficial normalidade que impede o registro dos sintomas. Pensa-se em gastrite o que pode ser um CA alarmante na parede do estômago. Pensa-se em enxaqueca o que pode ser um tumor agressivo no cérebro.

As pessoas são programadas para crerem na plenitude da vida. As pessoas são programadas para confiarem no sensor eletrônico do carro. As pessoas são programadas para acreditarem que fazem falta quando viajam. As pessoas são programadas para pensarem que deixam um vazio atrás de si quando se vão. As pessoas são programadas para terem fé em seu valor emocional e afetivo. E como precisam disso! Mesmo que isso não seja verdade. Muitas vezes a verdade é imperceptível e absoluta como o tanque de um carro cujo sensor não tem sensibilidade para registrar os primeiros sinais de um vazio. Como um bilhete sem assinatura. Como um conselho sem doçura. Como um aviso de que não há plenitude compatível com o vazio.

Começa assim: ela ia fazer uma viagem rápida, dessas viagens que duram, no máximo, um ou dois dias.
Termina assim: Se ela pudesse, não voltaria.

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Ana Maria Ribas Bernardelli
Estudante de humanas-idades, cidadã do céu e da terra, escritora por compulsão, leitora de letras, de pontos, de reticências, e de linhas, interventora de paisagens, solitária por opção, gregária por necessidade, gosto de músicas, filmes em que só as pessoas acontecem, documentários, biografias, e todas as obras de Clarice Lispector e de Watchman Nee. Vivo a espiritualidade, sem religião. Não tenho afinidades com rituais e com scripts que se repetem. Amo a liberdade, os animais, as plantas, os velhos, as crianças, e todos os seres que se sentem estranhos no ninho. Fujo de superficialidaes, e não tolero nenhum tipo de injustiça, crueldade, ou tirania. Adoro a Deus e a ele quero servir. Escrevo para organizar a vida, para aguentar o tranco, e em cada texto meu, você me encontrará. Espero que eu também lhe encontre no meu email, no meu site, e nos meus endereços nas redes sociais. Feliz por estar com vocês!

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