Sentir falta deve ser uma parte da vida, não uma maneira de viver

Imagem de capa: macondo, Shutterstock

Sentir falta de alguém também faz parte da nossa maturidade pessoal. Sentir o vazio permanente de uma ausência pode se tornar muito corrosivo. É necessário aprender a dizer adeus, “deixar ir” o que dói e o desespero, porque afinal de contas tudo isso faz parte do ciclo da vida.

Sabemos que o conceito de “sentir falta” está sempre associado à falta de uma pessoa. No entanto, é preciso tomar consciência de um aspecto muito curioso e concreto: o ser humano é um especialista em “sentir falta”; sente falta de objetos, de situações, de pessoas e até mesmo de dimensões abstratas que não conseguimos definir. Falamos sobre os vazios emocionais e existenciais, desses mundos interiores tão complexos que às vezes colocam em risco a nossa saúde mental.

“Alguém disse que o esquecimento é cheio de memórias”.
– Mario Benedetti –

“Eu sinto falta da pessoa que eu era antes, quando era mais alegre e tinha mais esperanças, mais sonhos”. Esta ideia, este sentimento de retrocesso que muitos podem ter tido mais de uma vez na vida, é o que o psicólogo Robert Plutchik definiu como “saudades do passado” e o incluiu também em sua famosa teoria da roda de emoções.

Não podemos nos esquecer de que viver imersos nesta bolha sutil com sabor de melancolia cria uma ânsia desesperada de algo que tínhamos ou éramos no passado. Por sua vez, esse anseio resulta em vulnerabilidade e essa vulnerabilidade se transforma em medo e talvez até em um início de depressão. Então, antes de nos permitirmos ficar à deriva como uma Ophelia, imersos em um mundo aquático de dores, precisamos de treinamento na arte da despedida e especialmente, em sentir falta.

Esse país chamado de “Sentir falta”

Existe um país invisível: um mundo paralelo, impreciso e intangível que todos nós frequentamos em algum momento chamado de “sentir falta”. Giramos a maçaneta para entrar nele cada vez que alguém que amamos se afasta, quando deixamos para trás uma rotina ou uma atividade que era muito significativa para nós. Vamos morar permanentemente nesse país quando perdemos alguém querido ou quando sentimos uma profunda insatisfação com nós mesmos.

Neste buraco vital sopra constantemente um vento frio chamado saudade: saudade de alguém ou algo. Na verdade, como a própria palavra saudade diz, fica difícil respirar, porque no nosso coração existe um buraco por onde a vida nos escapa pouco a pouco. Porque o país do “sentir falta” é um labirinto tenebroso onde você nunca deve ficar por muito tempo, porque à medida que avançamos esquecemos o caminho de volta.

Viver neste exílio permanente nos mergulha no desespero, em uma profunda insatisfação com o momento presente e com o mundo real. Para não ficarmos ancorados neste mundo paralelo, precisamos ser capazes de tomar decisões inteligentes nesses momentos de complexidade emocional, para conseguirmos sair deste labirinto e percebermos que sentir falta faz parte da vida, mas não é um modo de viver.

Treinando as suas emoções na arte de dizer adeus

Nós temos que aprender a fechar ciclos: aprender a não sentir saudades do que fomos ontem, mas investir no que podemos ser hoje. Temos que aprender a sentir falta de quem não está mais entre nós, mas precisamos guardá-lo no nosso coração, enquanto a nossa alma toma a decisão de ser feliz novamente. A vida é feita de decisões, colocar um pé na frente do outro para sair desses labirintos pessoais onde não é saudável ficarmos presos é uma delas.

Vamos refletir sobre quais estratégias podem ser úteis nestas situações.

“Deixar ir não significa desistir, mas aceitar que há coisas que não podem ser”.

Encontrar a saída em meio à complexidade emocional

“Sentir falta” nos coloca no meio do território de três poderosos cavalos de batalha: a saudade, o medo da solidão e a vulnerabilidade emocional. São três inimigos astutos que você precisa conhecer, controlar e aprender a domar.

– Viver a confusão. Quando sentimos saudade e falta de algo ou alguém, ficamos muito confusos. O que vou fazer agora? O que será de mim? Muitas sensações e emoções desabam sobre nós. Precisamos vivê-las por um tempo, assumi-las e deixá-las ir.

– Analisar a confusão emocional. Enfrentar o sofrimento por essa ausência ou vazio que ocorre em meio à tristeza é essencial para analisar e fragmentar esse tecido emocional que nos sufoca e nos domina.

– A melancolia, por exemplo, pode ser superada com novos objetivos no presente. O medo da solidão, por sua vez, pode ser superado com a coragem daqueles que começam a desfrutar da sua própria companhia, enquanto buscam o apoio dos outros.

– A vulnerabilidade emocional é superada com a bravura de quem olha o amanhã com mais coragem do que medo. Dessa forma, transformará o medo em resiliência, essa força que ninguém nos ensina e que a cada dia vamos descobrindo com passos firmes. Você pode estar sozinho ou contar com a ajuda das pessoas ao seu redor, mas precisa retomar o papel de protagonista da sua própria história.

Precisamos ser capazes de tomar novos rumos na vida sem que a sombra dessa falta, dessa ausência ou vazio coloque em dúvida as nossas decisões. O ser humano sempre sentirá falta de coisas, de pessoas, partes de um passado excepcional. São páginas da nossa vida que guardamos com muito carinho, mas são apenas capítulos de uma vida, onde ainda existem muitas linhas para serem escritas.

Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa

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Blog oficial da escritora Fabíola Simões que, em 2015, publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos Afetos".

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