Quando a gente se sabota

Imagem de capa: Viktor Gladkov, Shutterstock

Sabotagem não é apenas estratégia de inimigo para prejudicar quem detesta. Longe de se esconder por trás de planos maquiavélicos, ela pode partir de nós mesmos e ir minando nossa felicidade com atitudes simples mas repetitivas, de forma inconsciente ou não. Ela começa se apoderando de pequenos momentos – prazeres ou responsabilidades – até tomar conta da vida inteira.

Prorrogarmos a duração de etapas e relacionamentos vencidos ou a solução de problemas e conflitos incômodos, enquanto postergamos o que podemos fazer hoje para o dia seguinte e depois para o outro e outro. Vivemos, sem motivos justificáveis, uma sucessão de pendências e adiamentos. Adiamos, principalmente, o enfrentamento do trabalho que dá ser feliz.

Nos sabotamos quando nos recusamos a enxergar o que está a um palmo de nosso nariz, sobre a vida, os outros e nós. Custamos a aceitar que a felicidade, tirando raros momentos afortunados, quase sempre não vem de graça. Vem, isto sim, de querer. A gente sabota o nosso querer quando não enfrenta tudo o que é preciso para ter ou fazer o que deseja, seja por medo ou preguiça ou para não desagradar alguém.

Ah, o medo… Que concorrência desleal! Ele é nosso maior sabotador, simbolizando um complexo de inferioridade. Enquanto o cultivarmos diante do que está por vir, ele esmagará a nossa força interior, por maior que ela seja. Precisamos parar de ter medo da felicidade, de ter medo de que algo ruim aconteça, de ter medo de saber a verdade, de ter medo do que os outros vão pensar…

Até entendermos e respeitarmos o que de fato nos faz bem, nos importamos em demasia com os outros. Permitimos que pessoas nocivas invadam o nosso espaço ou suguem a nossa energia com seus problemas, conselhos ou comentários negativos. Dizemos sim querendo dizer não e vice-versa. Na maior parte do tempo, fazemos o que não queremos e deixamos de fazer o que queremos, engolindo a seco a frustração.

Sabotamos a maioria dos nossos sonhos, deixando-os no plano da irrealidade. Não nos atrevemos a colocá-los em prática para evitar decepções, já especulando o pior. Assim nunca poderão dizer que deram errado… Ou então iniciamos novas empreitadas, mas desistimos após as primeiras dificuldades. Como se não fôssemos dignos, capazes ou fortes o suficiente de alcançar o sucesso ou de resistir ao fracasso.

Alguns fogem de seus grandes amores. Outros ignoram as suas verdadeiras vocações. Muitos se atrasam para compromissos importantes. E por aí vai. A autossabotagem pode acontecer de várias formas, mas sua origem tem sempre a ver com baixa autoestima e falta de autoconfiança e amor-próprio. Por isso nos acostumamos a inventar pretextos, arrumar dificuldades, anestesiar dores e mergulhar em ilusões.

Somos os responsáveis por sair das armadilhas que criamos, por abrir os cadeados de nossas correntes. Um bom começo é enfrentar nossos medos e deixar de ter pensamentos e comportamentos tóxicos a eles relacionados. Quando eles vierem, temos que substituí-los imediatamente por outros que nos motivem. Ainda que isso assuste e canse no início, ainda que a gente caia depois, a confiança e a coragem nos fortalecerão a tentar até conseguir.

Quanto mais deixarmos de nos proteger da infelicidade, mais nos aproximaremos da felicidade.

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Nadja Bereicoa
Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás). Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia. Como diz o verso de um dos meus poemas, "Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer...".

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