Não tenho paciência pra me apaixonar

Depois de um tempo a gente percebe que se torna cada vez mais difícil se apaixonar. Nos julgamos mais exigentes e seletivos, mas não é só isso que nos mantém distante das entregas verdadeiras. Também não importa quão calejados estejamos de histórias mal sucedidas, as vezes, saímos de histórias que deram certo por muito tempo, mas simplesmente acabaram como tudo na vida. Acho que fomos feitos para acabar um pouco todos os dias. O que nos torna menos dispostos ao risco das novas relações é o desgaste natural, a preguiça de se atirar ao incerto em relações superficiais e efêmeras. Mergulhar em pessoas rasas.

Chega um momento na vida que o beijo na balada é muito mais pra preencher o tempo e se classificar numa competição disfarçada cujo sucesso é ter alguém pra sair no fim da festa. O beijo já não requer conquista e os rituais de sedução são cada vez mais ridículos, o sexo causal já não traz mais prazer existencial, a transa é puramente carnal e sem envolvimento, sem entrega. Dizem que é uma fase, os mais otimistas falam sobre o ímpeto da maturidade, mas o fato é que nos programamos para isso, para uma era em que o vazio ocupa um lugar imenso e nos perdemos tanto de nós mesmos que vivemos procurando metades que nos completem.

Não é mais o medo de sofrer ou de se decepcionar, é um instinto de sobrevivência que nos faz nos vestirmos de um “tanto faz”, se der deu, se não der… Talvez seja o medo de dar certo e de começar aquele ritual infinito de conhecer todo mundo na família, o cachorro, a tia que mora em outro estado, encher as redes sociais de fotos felizes, e, quem é que garante que não vai acabar? Temos medo de partidas, não das chegadas. Nossos celulares estão abarrotados de “contatinhos” enquanto uma conversa boa é rara. Você dá uma resposta qualquer, diz que vai tomar banho, ajudar uma velhinha atravessar a rua e que já volta, só pra conversa acabar. A gente nega antes mesmo de tentar, se protege, tranca o coração a sete chaves por preguiça. As nossas lições empíricas nos fazem cascudos, mas, sem coragem para o amor.

Não é que não existam pessoas interessantes por aí, elas existem, talvez estejam como nós, criando barreiras e desculpas pra não ir além da conversa de bar, pra não ir fundo em alguém. Continuamos nós, cheios de clichês sobre a coragem de encarar a vida, mas tão covardes pra abrir a porta pro amor que as vezes bate sorrindo. Ensaiamos discursos sobre uma solteirice que mascara fins de noites vazios. É preciso um tempo de solidão pra se realinhar energeticamente, eu sei, afinal somos a soma de tudo o que vivemos e das pessoas que passam pela nossa vida diariamente. Somos energia. É preciso dar uma pausa, descansar o querer e assumir o protagonismo da nossa história. Mas, a vida é por si só um amontoado de incertezas e uma hora ou outra a gente precisa deixar a zona de conforto, a merdinha quente na qual a gente acha que está protegido.

Uma hora ou outra é necessário deixar o medo de lado e se arriscar. Há de chegar um momento em que a rotina de um coração sem palpitar vai cansar também. Por mais que a gente negue o amor nos faz vivos, o amor nos insiste e ainda que tentemos evitá-lo, uma esquina ou outra vai trombar conosco e não vai nos deixar escapar. Sobre quão efêmero pode ser, só o tempo pode dizer, o tempo é implacável e silencioso. O amor? O amor é grito de carnaval.

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Giovane Galvan
Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.

14 COMENTÁRIOS

  1. as vezes me pergunto se é falta de paciência, preguiça ou proteção…ao mesmo tempo sei que as sensações de quando estamos apaixonados são maravilhosas…porém que tudo acaba e com isso vem aquela maldita sensação de vazio e mais decepções…
    aprendi em minha caminhada a não criar tantas expectativas e deixar rolar (meeega protegida e com os pés no chão)…mas confesso que é difícil viver sem as borboletinhas no estômago.
    sentimento e opinião 100% contraditória (hahaha)
    excelente texto! 😉

  2. Eu confesso que tenho preguiça mesmo.
    Não gosto de jogos de sedução e muito menos não poder ser eu (e ser eu, para os outros requer muito desprendimento).
    Então prefiro estar só…

  3. Amo essas publicações, é cada texto que vai fundo na alma e revira os pensamentos, traz aquelas lembranças boas, arranca sorrisos e faz bem para o coração!

  4. Ao mesmo tempo que sinto essa “necessidade” de ter alguém, também sinto essa preguiça de recomeçar, de me decepcionar mais uma vez. Infelizmente estou vivendo esse momento 😔 e então a cada decepção vou me fechando e me afastando das pessoas, evitando com que elas se aproximem…

  5. Vivemos em uma era de egos inflados e corações vazios. As pessoas estão tão perdidas que não sabem bem o que querem e se querem.
    O que impera hoje em dia é aparência, status e curtição. O amor, demôde! (como diria Rita Lee?)
    Embora eu ame o amor e amar, as pessoas (maioria delas) não estão disponíveis. As relações cada dia mais são superficiais e rasas.
    E gente carente aceita qualquer coisa, ao menor sinal de luz no final do túnel se entregam e, as decepções obviamente são certas.
    Cansada!!

  6. Gosto do texto, porém não concordo com a parte que fala: “Chega um momento na vida que o beijo na balada é muito mais pra preencher o tempo e se classificar numa competição disfarçada cujo sucesso é ter alguém pra sair no fim da festa.” Talvez pq eu sempre vou na balada pra curtir, e não pra pegar ou beijar alguém. Aliás acho que os caras de balada não servem nem pra se divertir, desculpe se estou sendo grosseira, mas sei que tem as pessoas que se encaixam no texto, enfim, só uma opinião, mas adoraria provar do seu tempeiro. Abraço.

  7. Mas é bem isso mesmo… Eu sai há pouco de um relacionamento onde vivenciei essa experiência da auto-proteção… da falta de entrega… por mais que eu tentasse me fazer próximo… por mais que eu mostrasse estar disposto a estar com a pessoa, nem que fosse 15 minutinhos, sempre havia a aquela resistência da pessoa… foi muito bom, pois a pessoa me fez ver coisas em mim que eu queria mudar e mudei… mas infelizmente, não teve como continuar, pela simples falta de interesse, o famoso: “Tô muito ocupada”… Por mais que eu sempre fizesse de tudo para tentar arrumar tempo, pois tenho uma vida tb muito corrida, a pessoa se protegia, não abria o coração… mesmo eu abrindo o meu… mas com o tempo… eu simplesmente deixei ir… mesmo não acreditando nessa história de tempo… acho que as pessoas perderam a vontade de lutar para algo dar certo… é mais fácil vc partir para o próximo… os relacionamentos são mais pelo o que é mais cômodo e fácil para as pessoas, do que pelo simples fato de gostar… vivemos relacionamentos cada vez mais vazios… cada vez menos duradouros…

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