Já não tenho idade para ficar na vontade

Imagem de capa: Subbotina Anna, Shutterstock

No final das contas, quase sem saber como, esse dia finalmente chega. Algo em nós desperta para nos dizer que já não temos idade para ficar na vontade, que os meios-abraços já não valem, nem as tentativas pela metade ou as noites sem Lua. No fim, sempre chega essa etapa em que os medos caem e os limites deixam de ter abismos para alcançar as oportunidades.

Dizia Jorge Luis Borges no epílogo de suas “Obras Completas” que nós somos os nossos passados, o nosso sangue, todos os livros que lemos e todas as pessoas que conhecemos. No entanto, teríamos que adicionar algo mais a essa lista: também somos o que não pudemos fazer na hora certa. Somos esses vazios, essas tentativas fracassadas em que ficou a vontade… aquela que pesa muito mais do que os erros cometidos.

“O fracasso é a oportunidade para começar de novo com mais inteligência.”
-Henry Ford-

Convencermos a nós próprios de que os trens sempre passam para aqueles que sabem esperar é pouco mais do que uma triste miragem, uma frase banal demais nos manuais de autoajuda. Os acontecimentos tiveram o seu momento, sua oportunidade mágica, que desapareceu como fumaça escapando através de uma janela aberta. Eles nunca mais voltarão a acontecer. No entanto, em cada novo amanhecer se abrem novas portas por onde entram ventos mais frescos e espaços mais nítidos onde nos aproximamos com atitudes renovadas.

Antes de dizer para nós mesmos que “a minha idade já não me permite” ou “essas coisas não são para mim”, temos que ser capazes de desapegar dessa triste melancolia para recuperar a fome, o desejo e o prazer de viver com as mãos cheias e o coração aceso.

A vontade nos impulsiona a sair da nossa zona de conforto

Já não temos mais paciência para ficar apenas com a vontade ou para mostrar o belo mar dentro de nós para pessoas que não sabem nadar, que não entendem a linguagem das nossas ondas. Chega um momento em que detestamos o burburinho da rotina, porque longe de nos conferir segurança, ela parece um triste inverno onde nunca chega a primavera, e muito menos as sugestivas noites de verão.

Não importa a idade que aparece na nossa carteira de identidade, pois é o próprio coração que carrega a verdadeira juventude, aquela que ainda anseia por novas experiências, novos sabores. Temos vontade de algo, mas… como dar forma a essa necessidade vital? Como cruzar as fronteiras da nossa rotina? Pode parecer um pouco contraditório, mas às vezes podemos transformar o nosso sofrimento ou as nossas preocupações em nossos verdadeiros aliados para ir mais além das nossas áreas de segurança.

Muitos de nós pensamos ainda no termo “zona de conforto” como uma relíquia da psicologia motivacional dos anos 80 que tanta bibliografia criou. No entanto, aquela teoria que começou em um princípio para descobrir qual era a faixa de temperatura ambiental em que uma pessoa se sente confortável demonstrou algo ainda mais interessante: o ser humano está programado para buscar espaços neutros onde se sente seguro.

No entanto, essa segurança nem sempre fará com que você seja mais feliz. Em algumas ocasiões, surgem novas necessidades de vida.

Perceber que as nossas zonas de conforto ficaram pequenas sem dúvida nos faz querer ultrapassar os limites dos nossos medos em busca de novas oportunidades. Porque às vezes abraçar as nossas preocupações e sofrimentos é o único meio de garantir as bases do progresso.

Os círculos da sua vida e as novas oportunidades

Vamos visualizar por um momento o curso da nossa vida. O mais provável é que você tenha feito isso imaginando uma linha reta. O seu passado fica nas suas costas, com tudo aquilo que você deixou escapar, com todos as suas tentativas fracassadas e seus caminhos nunca explorados. Por outro lado, suspenso na ponta do seu nariz e bem na sua frente, se abre sem dúvida o futuro, onde surgem todas as oportunidades de progresso acima mencionadas.

Bem, na verdade não deveríamos pensar na nossa vida deste modo: o ideal é visualizá-la em círculos. Peter Stange é um famoso cientista e engenheiro de sistemas que define o nosso mundo e a nossa existência como um belíssimo sistema de círculos conectados entre si. Quase em forma de mandala. São círculos que começam e acabam e que, por sua vez, se entrelaçam de uma forma maravilhosa uns com os outros. Pensar na nossa vida dessa forma nos convida sem dúvida a refletir sobre várias questões.

A primeira ideia que devemos deduzir dessa proposta é que as oportunidades perdidas de ontem, os erros ou as tentativas fracassadas do passado fazem parte de um ciclo que já terminou. Ver que existe um início e um final neste ciclo nos convida, sem dúvidas, a iniciar um ciclo novo com maior solidez, sabedoria e esperança.

Nesta etapa em que você se encontra agora, qualquer coisa é possível: é um círculo aberto onde você volta a ser receptivo/a a tudo ao seu redor. As oportunidades são múltiplas e evidentemente você sabe de uma coisa: você não vai ficar na vontade. Tudo o que foi vivido no seu passado não fica nas suas costas, mas te envolve para servir de referência, para recordar quais portas não merecem ser cruzadas e por quais limiares você deve passar com total segurança.

Viver é, no fim das contas, construir uma preciosa mandala em que tudo está em movimento. Você escolhe as cores agora, não fique somente na vontade de construir a felicidade que você deseja e sonha.

Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa

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Blog oficial da escritora Fabíola Simões que, em 2015, publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos Afetos".

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