Caleidoscópios vivos

Imagem de capa: Elena Ray, Shutterstock

Como belos caleidoscópios, podemos nos multiplicar em infinitas imagens e cores, assim como vermos a vida – deixando que ela nos surpreenda e sendo capazes de surpreendê-la. As lapidações em nossa personalidade, os reflexos de nossa alma, as refrações de nossa história nos fazem explorar e revelar ângulos e nuances antes impossíveis.

Quem somos de verdade?! Tímidos ou extrovertidos? Medrosos ou destemidos? Racionais ou emotivos? Às vezes passamos a vida tentando nos definir. Podemos parecer ilusões de ótica aos outros ou nos enganar com elas, mostrando e enxergando o que queremos. Um dia uma metamorfose começa e nossas verdadeiras características se afirmam. Algumas desaparecem e outras se diluem ou se mesclam em círculos que ora se abrem ou se fecham.

Viver não é um jogo de tudo ou nada, de quem ganha ou quem perde, nem um ensaio para um único personagem. Os papéis se invertem ou passamos a desempenhar todos num só. Assim vemos histórias pouco críveis tornarem-se reais. O hippie da faculdade pode se transformar num riquíssimo empresário da informática, enquanto a executiva bem-sucedida resolve viver da agricultura orgânica num sítio. Nada impede que a garota popular e sexy da escola vire uma intelectual respeitada e a nerd ignorada se torne uma atriz famosa. A explicação para o que nos tornarmos está na vontade ou na falta dela.

A vida é multifacetada, cheia de metáforas e sinais, cores e desenhos que se escondem na imprevisibilidade dos dias e na exuberante aquarela da natureza. Mesmo a mais corriqueira paisagem revela abstrações e poesia que um detido olhar é capaz de enxergar. De repente, um rosto que se forma entre as nuvens e o céu, com os raios de sol iluminando-o, parecerá nos fitar. Ou o tapete bordado por folhas de vários recortes e tons – verdes, amarelas e vermelhas – derramadas sob a calçada, nos fará caminhar levitando. Podemos ver beleza em tudo…

Mesmo não sendo camaleônicos, não precisamos ficar presos a estereótipos criados sobre nós, a relacionamentos e trabalhos que nos fazem mal, muito menos seguir padrões de comportamento que ditam que devemos estar sempre bem dispostos e sociáveis. Nossos pensamentos e sentimentos são livres. Nossas auras podem estar cinzentas e tristes em pleno dia de sol no verão, mas numa noite chuvosa de inverno elas poderão despontar esplendorosamente coloridas e alegres. Ninguém é totalmente bom, centrado e feliz. Isso é puro maniqueísmo.

Embora algumas índoles sejam predominantes em cada um, todos temos dualidades e ambivalências – por mais que tentemos ser coerentes. Um acesso de raiva quando tudo dá errado, um desejo de dar o troco a quem nos prejudicou ou outro lado sombrio, mesmo quando nossa essência é do bem, nos tiram do eixo em que orbitamos. Somos movidos não somente pela razão ou pelo coração, mas também por impulsos e instintos que nos fazem refletir e nos aprimorar.

Nossa existência é muito curta para ter tracejados lineares e monocromáticos. Nossos fragmentos podem ser partes de lindas obras, mosaicos construídos com rachaduras. Ao aceitar novos desafios, aprender com erros passados, questionar enraizadas certezas, vivemos várias vidas em uma. Podemos ser choro e riso, espinhos e flores, neblina e raios de sol, fogo e água – tudo o mais que quisermos e precisarmos. Como caleidoscópios girando em absoluta transformação.

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Nadja Bereicoa

Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás).
Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia.
Como diz o verso de um dos meus poemas, “Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer…”.

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