Amizade também acabada

É necessário entender que a amizade é sempre voluntária. E aceitar isso implica em aceitar também que, se é voluntária, o outro tem o direito de ir.

<<Parceiros amorosos vão um dia, amigos ficam>>. Li essa frase por esses dias no Facebook. Li e não concordo com ela, pois tanto parceiros amorosos como amigos podem ficar ou podem ir um dia. Acreditar que toda amizade é eterna só por ser amizade é ingênuo. É uma ilusão. E é bom que não seja verdade, já que partir do princípio que amizade não acaba é não reconhecer o direito do outro (ou de nós mesmos) de ir, de seguir um caminho diferente, de se afastar.

A palavra amizade é uma palavra forte e muito usada por aí. O problema é que ela é usada para muita coisa, muita coisa mesmo, até mesmo nossos contatos (perfis, links) em rede sociais são chamados de amigos e saímos violentando essa palavra diariamente, banalizando a amizade e perdendo de vista o verdadeiro significado de ser amigo de alguém.

A amizade é um dos relacionamentos mais agradáveis que temos, pois é um relacionamento voluntário. Ninguém é obrigado a ser amigo de ninguém. Não é como com os colegas de escola, faculdade ou trabalho, que não podemos escolher. Ou mesmo nossos vizinhos, já que não decidimos quem mora na casa ao lado. Até o relacionamento com a família, por mais bacana que seja, não é voluntário, já que ninguém escolhe em que família quer nascer. Simplesmente nascemos em alguma delas e temos que nos virar com a família que recebemos, gostando ou não.

O aspecto voluntariedade na amizade é ainda mais forte que em relacionamentos amorosos, que também são voluntários, mas mais complexos, com elos emocionais, materiais e familiares que podem prender e dificultar bastante quando alguém resolve se separar. Ter filhos, por exemplo, pode causar o sentimento de obrigação de ficar na relação, mesmo querendo ir, o que faz com que o relacionamento deixe de ser voluntário.

Esses elos, essas obrigações não existem (ou não deveriam existir!) entre amigos. Duas pessoas ficam amigas por se gostarem, por se prezarem, por se acharem simpáticas, por se sentirem bem quando estão perto. Essas duas pessoas fazem tão bem uma a outra que é natural que queiram se ver de novo, e de novo, compartilhando e trocando experiências, conversando, apoiando-se, mas principalmente dando ao outro exatamente esse sentimento de voluntariedade: ali está alguém que gosta por gostar, que curte estar em contato com você e que o faz porque quer, sem nada que o obrigue a isso.

É necessário entender que a amizade é sempre voluntária. E aceitar isso implica em aceitar também que, se é voluntária, o outro tem o direito de ir. É importante aceitar que amizade também acaba.

Ao contrário do que é dito por aí, o ser humano muda. E muda sempre, o tempo todo. Ninguém é hoje o mesmo ser humano que foi ontem e não é o mesmo que será amanhã. Muitas mudanças passam despercebidas, algumas mudanças são para melhor, outras para pior, mas mudamos. Sempre.

Andam dizendo também por aí que devemos viver aqui e agora. Concordo. Quem vive aqui e agora percebe essas mudanças, já que foca no momento e não fica “enfeitando” a realidade com recordações do passado.

Quando temos dificuldades em deixar um amigo ou uma amiga ir, então não entendemos isso: que ele/ela mudou, que nós mudamos, que talvez não harmonizamos mais como já foi um dia, que talvez nosso contato não seja mais tão interessante como era, que simplesmente algo passou, algo natural, já que é normal que a vida passe, aceitando que o amigo ficou pelo tempo que quis, voluntariamente, e que agora ele tem o direito de ir.

Já vi muita gente ignorando isso, fazendo cobranças, reclamando da falta de tempo ou de interesse do “amigo”, se decepcionando, se enchendo de mágoas, se vendo como vítimas e não percebendo a própria injustiça, de estar cobrando obrigações em um relacionamento voluntário.

Por mais que o fim de uma amizade doa, ao invés de reclamar quando um amigo se afasta, faz mais sentido ser grato pelas coisas boas (sim, houve coisas boas; se não houve, não foi amizade), pela companhia numa fase de sua vida, pelos momentos de partilha e crescimento, por tudo que essa amizade lhe trouxe. Seja grato e deixe ir, com carinho e serenidade, sem mágoas ou ressentimentos, aceitando e respeitando o direito que todos temos de ir ou ficar.

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Gustl Rosenkranz
Blogueiro brasileiro residente em Berlim.

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