Somos autores e personagens de nossos destinos

Imagem de capa: NIKITA LEVRINTS, Shuttertock

A vida é um misterioso roteiro, irônico ou drama. Quase sempre escreve certo por linhas tortas e em outras escreve errado por linhas retas. É como uma trama aberta, com acontecimentos enredados que um autor desenrola aos poucos com a colaboração de seus personagens. Dependendo de nossos caminhos e desempenhos, nossos papéis podem ser ampliados, encurtados ou seguir o script do destino, cumprindo o que estava determinado do início ao fim.

Quando nada parece fazer o menor sentido, mas está repleto de significados, tudo se esvai de repente, submergindo pelos redemoinhos do destino. Assim foi com o ator Domingos Montagner, em pleno ápice quando foi tragado fatalmente há duas semanas pela correnteza do Rio São Francisco, após protagonizar uma novela às suas margens. Assim também acontece com incontáveis pessoas que um dia viram a esquina e não voltam mais para suas casas e famílias e para suas intrincadas e anônimas histórias.

Em um mergulho, um terremoto, um assalto… Tudo pode acabar em minutos, segundos, a realidade parecer ficção fantástica e a morte, abrupta, se assemelhar a carma ou missão. Nessas horas, não há tempo para despedidas ou declarações, mas certamente sobra espaço para saudade ou arrependimentos. O que não foi feito e dito, mas poderia ter sido… O que foi dito e feito, mas não deveria… O que foi vivido de mais sublime… O destino, que mais parece um golpe de azar, vem no encalço dos que precisam completar suas evoluções espirituais.

Quando nos deparamos com fatalidades alheias, inevitável pensar em como a vida é fugaz, que pode escapar de nossas mãos e na importância de vivermos o hoje da melhor forma possível, sem perder tempo com besteiras. Viver é um risco que temos que correr, mas acima de tudo é uma lição que precisamos aprender, entre o imponderável do acaso ou do destino e as previsíveis consequências de nossas decisões. Nosso livre arbítrio (e isto inclui como tratamos o livre arbítrio dos outros) determinará nosso crescimento ou atraso e o que teremos pela frente.

Acredito que os principais fatos de nossas vidas ocorrem quando precisam acontecer, assim como encontramos as pessoas mais importantes porque necessitamos delas. As provações e como as encaramos decidirão nossos caminhos. A maior parte deles, para o bem ou o mal, já está traçada. Nem sempre, porém, será fácil reconhecê-los, pois podem se esconder por labirintos e incluir armadilhas. Nossas estradas possuem bifurcações estratégicas, com duas ou três opções de rotas – os nossos diferentes destinos.

Placas convidativas para atalhos ou outras paragens aparecem para nos confundir. Tempestades alagam a pista para nos fazer derrapar. O motor aquecido ou uma pane elétrica nos detêm no acostamento. Toda a sorte (ou azar) de problemas pode acontecer e ficar breu, frio e deserto. Podemos nos manter seguros, sabendo de cor e salteado o mapa de nossos desejos e metas. Na dúvida, perdidos, usamos o GPS de nossas experiências e intuição ou saímos a esmo, até gostando da adrenalina. Algumas vezes retrocedemos para retomar um rumo que ficou para trás.

Há momentos, porém, que estamos na hora e no lugar certos ou escapamos da hora e do lugar errados, como num passe de mágica. Todas as peças, todos os atos, parecem se encaixar como num quebra-cabeças, como novelos entrelaçados em uma mesma trama. Se retrocedermos nossos passos no relógio, veremos como surpreendentemente os apressamos numa direção ou os atrasamos até prosseguir. Nosso radar, mais sensível do que de costume, capta os sussurros do destino e então, teimando contra tudo o que nos desmotivaria, nosso coração nos impulsiona até ele.

Como explicar quando um passageiro desiste de um voo no avião que vem a cair e um casal se conhece e se apaixona em meio a inacreditáveis coincidências? A vida é intercalada pelo que podemos ou não evitar, ciclos naturais e muitos capítulos misteriosos. Mas não basta aguardar de forma passiva pelo “o que tem que ser será”, nem ignorar, sabotar, o que nos chama. O destino pode se curvar, flexível, frente a escolhas, pensamentos e atitudes, numa relação de causa e efeito. Ou se quedar sobre nós, inevitável, como parte de um roteiro pronto – talvez reparação para desacertos e desencontros de outras vidas.

Certo é que todos temos o destino que precisamos, na medida certa de nosso merecimento.

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Nadja Bereicoa
Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás). Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia. Como diz o verso de um dos meus poemas, "Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer...".

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