O manual da boneca

Imagem:  GlebStock, Shutterstock

Mas meus desejos não eram nada complicados. Queria poder dormir com brisa gelada de janela aberta. Queria um canto pra chamar de seu. Queria não mais perder as canetas azuis com as quais costuma prender o cabelo. Queria ser um pouco menor e queria ter um carro. Queria poder estar sempre perto do mar, ainda que fosse só pra olhar. Queria nunca mais passar pela situação desagradável que é ter um soluço e seis graus de miopia. Queria enxergar melhor, as coisas e as pessoas. Queria tanta coisa e ao mesmo tempo não queria nada que chegava a dar enjoo em quem teimasse acompanhar de perto. Quereres tão incertos de uma alma à procura de tanta coisa. E de nada. Porque se quisesse encontrava. Ainda que demorasse. Ainda que não viesse. Ainda que tudo conspirasse a favor de seu avesso. Tinha preguiça de pensar. E sentia muito calor. Não se acostumava com a sauna de dezembro que sempre fazia naquela cidade. E o beijo estalava na boca como copo que quebra em cima da pia. Simples assim. Andava desejando coisas estranhas. Mundos distintos. Queria provar do próprio grito pra ver se libertava a alma. E tudo voltava ao cárcere. Dependente que andava das pessoas. Não sabia como achar o caminho de seu próprio labirinto e quase torceu o menisco tentando se fazer voar. Porque era teimosa. Porque queria ver como era. Porque tinha curiosidade de cachorro farejador. Ainda que muitas vezes não gostasse dos cheiros que apareciam em seu caminho. Escrevia coisas que ninguém entendia, mas que todo mundo gostava pois pareciam bonitas. Frases de efeito que sempre soube usar muito bem. Mas era estranho se acostumar com o acaso que às vezes vinha se instalar. Acaso cheio de silêncio e súplica. Volte a escrever. Volte a desenhar. Volte para o seu lar. Mas ela fingia não escutar. Ela fingia não entender os sinais. Ela decidia que a vida não tinha mais graça desde aquela noite em que ela não conseguira voar. Maldito medo de altura. Maldito espasmo. Estranho momento. Porque coragem nunca foi seu forte. Menina estranha que era. Ora implicante ora boneca com vassoura na mão a espalhar todo o seu mal. Risco inerente até para quem conhecesse muito bem seu doce, inútil e irascível manual.

Crônica do livro “As Maravilhas do País de Alice”, Scortecci Editora, São Paulo, 2008.

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Alice Venturi
“Burila as palavras com a maestria de quem enxerga as veredas do ser como pontos de passagem, onde tudo é passível de transformação. Os sentimentos se entrelaçam, vão da risada escancarada à mágoa que mancha as horas com um encardido que não sai fácil. As palavras dela não saem fácil da gente, perpetuam-se nos recônditos espaços, proliferam sentidos e criam raízes fundas. A “Palavra” que estilhaça e esfuzia sentidos é a mesma que embala e cura a alma das mazelas cotidianas. Chega para sublinhar a sofisticação do simples, para propor o jogo poético das imagens que se entrelaçam desvelando tudo que vibra e faz vibrar. Fotógrafa, poeta, produtora artística e professora são algumas das nuances dessa carioca de alma furta-cor que vive suscitando diálogos entre os diversos campos artísticos e convocando à emoção, ao delírio ─ ao voo. Formada em História da Arte pela UERJ, Alice tem um livro publicado, “As Maravilhas do País de Alice”, pela Scortecci Editora, 2008”. Ester Chaves

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