Mulheres independentes

Imagem de capa: Ollyy, Shutterstock

Todas nós, mulheres, gostamos de ser consideradas mulheres independentes aos olhos dos demais. Na maior parte das vezes, fazemos questão de lembrar – mais a nós do que aos outros – que é assim que pretendemos continuar. Independentes. Fortes. Donas do nosso nariz. Com pelo na venta. E é de cabeça erguida que comandamos a nossa vida. Muitas vezes, comandamo-la contra o que a sociedade estereotipou para nós. Mulheres independentes gostam pouco de seguir o «socialmente estipulado». É à conta de termos coragem de rasgar essas regras que temos carreiras, que continuamos a lutar pelos nossos sonhos e que, tantas vezes, fazemos o papel de homem e mulher. Já nenhuma mulher independente ousa dizer que se atrapalha, quando o carro tem de ir para a oficina ou quando precisa de arranjar o autoclismo lá de casa. Uma mulher independente quer-se, por natureza, forte. É uma mulher que não quebra. Que enfrenta, estoicamente, os obstáculos que o criador colocou, à partida, ao sexo masculino. Mas, ao contrário do que se possa pensar, isto de querermos ser mulheres independentes, muitas vezes, vira-se contra nós. Claro que nunca o vamos admitir — até porque mulher independente não quebra. Mulher independente resolve. Mulher independente não se apega. Mulher independente quase não sente. Ou, pelo menos, é isso que os homens, de uma forma generalizada, pensam. Uma mulher independente, por norma, procura para si pares iguais. Com o mesmo nível de maturidade, independência e resiliência para com a vida. O que nos atrai? O que vamos dizendo, à boca cheia, nas primeiras abordagens: — Aprecio uma mulher independente. E, nós como independentes que achamos que somos, retorquimos: — Perfeito. Essa sou eu. Tretas.

Na vida real, não é nada disso que se passa. Nós, mulheres independentes, queremos, na maioria das vezes, descer dos saltos altos quando chegamos a casa e vocês, homens, desejam que as vossas mulheres nunca os cheguem, realmente, a calçar. Têm receio. De sermos tão independentes que não queiramos sequer ter-vos para nós. Têm medo que não caibam na nossa vida. Que sejam os únicos a sentir, a amar, a rir, a chorar. Com isto não estou a dizer que os homens não apreciem, verdadeiramente, uma mulher independente. Acho que tentam fazê-lo, genuinamente. Juro que acho. No entanto, na maioria das vezes, não conseguem. Uma mulher independente assusta um homem. Incute-lhes, de tal maneira, uma margem de insegurança que acabam por condenar toda essa independência que tanto elogiam. Os homens – com as merecidas exceções que têm de ser ressalvadas – não sabem lidar com o facto de uma mulher ter o poder de escolha. De saber o que quer para si. De escolher, apenas, o que lhes faz sentido. Para as mulheres, ir passar um fim-de-semana na companhia de amigas, ir a um jantar a meio da semana, pegar no carro para ir a uma festa de aniversário, são coisas que lhes fazem todo o sentido. Contudo, para muitos homens continuarão a ser coisas que lhes fazem perder os sentidos. Assusta-os o facto das mulheres independentes também já poderem ir comprar tabaco e nunca mais voltarem. Mas, aqui, que ninguém nos ouve, vou abrir uma nesga da caixa de pandora. As mulheres ditas independentes também quebram, não resolvem tudo e querem muito apegar-se. Precisam de descer dos sapatos de salto alto e calçar as pantufas fofinhas que estão guardadas a um canto. Apreciam tirar a maquilhagem e ficarem sentadas no sofá sem lhes apetecer fazer o jantar. Gostam de ter um colo para ver um filme no domingo à tarde e precisam que lhes peçam que fiquem mais um bocadinho. As mulheres, ditas independentes, gostam que vocês – homens que apreciam mulheres independentes – nos digam que levam o carro à oficina e que é hoje que vão arranjar o autoclismo lá de casa. Que nos peçam para ficar. Não na vossa cama. Na vossa vida. Que não tenham medo que não voltemos, só porque fomos passar um fim-de-semana fora com as amigas. Não nos vejam como adversárias. O que mais desejamos é ser vossas aliadas. Porque nós – aquelas mulheres independentes que vocês dizem apreciar – mais do que independentes, continuamos a ser mulheres e, por vezes, só estamos à espera que vocês – homens que apreciam mulheres independentes – nos descalcem estes sapatos, tantas vezes apertados, e nos digam que gostam de nós sem maquilhagem.

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Júlia Domingues
Júlia Domingues. 39 anos. Jurista de formação, criativa por paixão. Sou feita de gargalhada estridente talvez porque acredite que, estridente deva ser a nossa existência. Não para os outros. Para nós. Estamos começados mas não estamos acabados. E , no fim; no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras e no desenho. Sou mulher e sou feliz.

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