Mudança, sinônimo de vida

Imagem de capa: BABAROGA, Shutterstock

Sair da zona de conforto ou comodismo e mudar – de comportamento, de emprego, de casa, de país – nunca é fácil. Implica em arriscar, reconstruir, sofrer e perder, ainda que algo desgastado a que estamos preguiçosamente acostumados. Por isso, fugimos quando deveríamos, por responsabilidade existencial e cósmica, estar abertos às mudanças que se anunciam fora ou dentro de nós. Se elas soprarem ao ouvido como cochicho do destino ou sinal de Deus, melhor: cada segundo pode ser o sim ao recomeço bem-vindo, à grande conquista, à chance derradeira.

Mudança é puro sinônimo de vida. De crescimento, de amadurecimento, de renovação. Mas também a ideia da morte nos impulsiona para ela. À medida que temos menos tempo, entendemos que precisamos aproveitá-lo ao máximo e com verdade, sendo felizes e – para os espiritualizados – nos preparando para a maior transformação que virá. Novos conhecimentos e experiências, hábitos e opiniões, ideias e projetos, amores e amigos. Eles podem chegar de graça, como bençãos, ou ser conquistados com vontade, ousadia e algum esforço.

Mudar, mesmo para uma situação de vida mais favorável, significa deixar para trás sentimentos e costumes tão arraigados que não percebemos se são bons ou maus. Saímos do piloto automático e voltamos a dirigir nossas vidas, usando as marchas certas para assimilarmos o novo, que nos fascina tanto quanto nos inquieta, assusta. E, sim, é possível controlar ou dissipar o medo, a preguiça, o vício para sentirmos emoções mais nobres e sermos diferentes, melhores. Qualquer mudança, por menor e mais externa que seja, deve ecoar em nós, fazer-nos refletir sobre o que houve entre o antes e o depois e sobre a nossa imutável essência.

Sem perceber, nos tornamos escravos da rotina. Quase sempre previsível e arrastada (um pouco porque nós a tornamos assim), ela nos dá segurança. Usamos por décadas o mesmo corte de cabelo, enquanto nos imaginamos no espelho com um visual arrojado. Adotamos um cardápio trivial e já enjoativo, podendo experimentar novas saborosas receitas e temperos. Sentamos no sofá para assistir programas tolos na TV, quando poderíamos escutar música de qualidade e ler um bom livro. Checamos celulares a todo o momento, ao invés de nos conectarmos com nossas próprias emoções. Nos acostumamos à repetição e a não inovar.

Cansativa e cheia de obrigações, a rotina também tem o seu potencial de mudança. A convivência entre pais, filhos, irmãos, companheiros – qualidades e valores, defeitos e manias – nos transforma se soubermos tolerar, ceder e observar. Mudamos quando passamos a não querer discutir e, se isso ocorre, a aceitar que não temos razão ou a não deixar que nossa razão nos roube a paz. Mudamos ao abandonar um comportamento que desagrada e ao abaixar o tom de voz. Mudamos ao substituir sentimentos que nos fazem mal. Que tal trocar o egoísmo pela generosidade, a mágoa pelo perdão, a vaidade pela modéstia?

Nunca tive espírito nômade, mas sempre evitei a estagnação. Aos trinta anos, vivi meu maior ciclo de mudanças: fui morar sozinha, terminei um desgastado relacionamento, me apaixonei por meu marido e – jornalista por onze anos – iniciei novo trajeto profissional. Recomecei do zero, ao estudar e estagiar até virar advogada, para depois me decepcionar com a engrenagem jurídica. Casei e tive dois filhos, mudando o foco do meu olhar para a vida a dois e a maternidade. Aos 40, parei para balanço até que aos 46 anos passei a viver minha segunda grande fase de mutação, em que ainda me encontro. Comecei a expor meus textos e poemas e a investir no meu autoconhecimento, além de morar um ano e meio nos Estados Unidos.

Mudar geograficamente é das experiências que mais nos transformam a curto prazo, pois aprendemos com o estranhamento, a saudade e as diferenças. Há até os que gostam de refazer a vida em novos lugares a cada comichão por aventura (para quem é assim, parar pode significar a grande virada). Mas mudar profundamente pode ser algo menos radical. Pode começar pelo abandono de atitudes negativas – como ser fumante ou sedentário – e comentários ranzinzas e autodestrutivos. A reprogramação física e linguística ao mudarmos o “eu não consigo” por “eu posso” faz milagres.

Voluntárias ou não, planejadas ou inesperadas, mudanças surgem até de sofrimentos e adversidades. De repente, no marasmo da vida, enormes ondas poderão te derrubar violentamente, quase te afogar, numa sucessão de caixotes no mar revolto, mas você não morrerá na praia, não! Você levantará e cairá, levantará e cairá de novo, tantas vezes que perderá a conta, até se equilibrar e voltar a caminhar lentamente, ainda cego pela areia e o sal nos olhos, ainda trôpego e sem jeito pelos tombos. E então precisará decidir ir embora em frangalhos ou ficar, se recuperar do susto, e perceber como é maravilhoso estar vivo – sentindo espraiar-se dentro de si uma força sobrenatural que desconhecia. E esta será a sua grande e silenciosa mudança.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Nadja Bereicoa
Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás). Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia. Como diz o verso de um dos meus poemas, "Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer...".

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here