Insistia tanto em ser amor

Imagem de capa: JLwarehouse, Shutterstock

Eu tinha decidido que me apaixonar não estava nos planos. Era pra ser uma fase dessas que a gente se organiza no trabalho a fim de faturar o “primeiro milhão”, terminar de escrever aquele livro que ficou num arquivo em algum lugar, era pra entrar no curso de inglês, sair do país e postar um monte de foto no instagram. Era aquela decisão sóbria de excluir o amor do protagonismo da minha vida e assumir o papel principal. Tinha um roteiro completo e nele eu seguiria sozinho. Mas, te encontrei.

Quem nunca encontrou um amor estonteante destes de se dizer: __Onde você estava o tempo todo que não aqui na minha vida? Um amor do dia pra noite, cheio de sintonia, cheio de papo bom, cheio de paixão. Quem nunca encontrou um amor que te faz engolir o que disse sobre amor próprio, engolir os clichês que você sustentou por longos meses desde o seu último relacionamento? Quem nunca foi a nocaute com um olhar? Eu fui!

Aqui você transbordou, te chamei de amor no dia seguinte, logo eu que não dou bandeira. Dois dias depois tinha uma escova de dente sua no meu banheiro, logo eu que odeio quem toma meu espaço. Postei uma foto do nosso sorriso com um coraçãozinho vermelho, tem dessas coisas né? Não era o azul, o roxo, esses de “friend zone”, era o vermelho, era a certeza fiel de que na outra semana a gente ia almoçar com a minha família e eu iria contar pra todo mundo tudo quem você é e todas as coisas que você faz que te fazem assim tão incrível. Passei o dia ouvindo aquela música que você me mandou e até coloquei ela na minha playlist. Logo eu.

Eu não sei direito o porquê. Ficamos um domingo sem nos falar, tivemos uma briga besta pela falta de resposta, pela falta da falta e um iceberg foi se instalando e deixando nossos dias cada vez mais vazios da gente. Foi tão intenso, tão rápido, insistia tanto em ser amor, mas acabou. Aquele filme que estava na minha lista no “Netflix” que combinamos ver juntos, vi sozinho. Aquela amiga que saiu conosco me disse que não botava mesmo muita fé na gente não. Eu até tentei achar justificativas, mas desisti. Há amores fadados ao fracasso e por mais esforço que a gente se permita, é apenas uma utopia na qual projetamos aquilo que vai muito além da nossa euforia ou desejo de um amor de cinema.

Eu me vi tão maduro jogando a escova no lixo, não com jeito de quem quer se livrar da lembrança, mas com a certeza de que você não vai mais usar. Foi meio que quando eu terminei de ver Breaking Bad e no final vi o Walter White morto, ali no chão, acabou assim, meio sem final, deixando um hiato que levei algumas horas pra compreender. Não foi um término já que concordamos em não nos darmos rótulos. Foi um saindo de cena da vida do outro, cuidando pra não desmontar o cenário. Restaram meus planos, meu curso de inglês, o livro, a viagem, e minha própria companhia com quem, aliás, tenho me dado muito bem. Restou a paz de entender: há amores instantâneos, nascem pra ser e não pra durar.

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Giovane Galvan
Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.

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