“Deixa partir o que não te pertence mais”

Há uma semana, chegando ao fim do ano, uma amiga querida conversava comigo. Superando o fim de um casamento, disse que seu maior pedido para o ano novo era não pensar mais na pessoa que se foi. Em silêncio orava a Deus pedindo para esquecer e seguir seus dias sem a presença do ex marido em seus pensamentos. Concordei com minha amiga e, à distancia, tenho orado por ela também. Para que consiga esquecer. Para que a lembrança dos dias felizes seja só uma recordação, não um aviso luminoso reafirmando sua dor. Para que enfim ela deixe partir o que não lhe pertence mais.

Assim como minha amiga, muita gente precisa sepultar os castelos que já foram derrubados, as sementes que não germinaram, as despedidas que se concretizaram.

Com ou sem o nosso consentimento, muita coisa morre em nossa vida. E é preciso força e lucidez para se despedir. Para aceitar o fim de uma estação e o começo de outra. Para desligar-se do que não existe mais e ter olhos atentos e coração aberto para o que quer nascer e florescer em nossa vida.

É preciso aprender a se despedir. Aprender a libertar certas pessoas ou situações de nossos laços, mesmo doendo, mesmo partindo. É preciso se transformar por dentro. Fazer de todos os dias a oportunidade de seguir em frente comungando do amor próprio e da alegria de saber-se inteiro, cheio de bênçãos, cheio de novas possibilidades.

Neste ano que se inicia, peça a Deus um coração tranquilo. Um coração que aceita o que lhe foi reservado e comemora com ternura o que já conquistou.

Porque nem todos os caminhos sonhados se concretizam, e é preciso suportar as ausências, falhas e faltas que fazem parte da vida de qualquer um. Ter sabedoria para lidar com o que se despediu sem que a gente quisesse é a chave para amar a vida que se tem.

Já vi muito coração partido doer mais que joelho esfolado, e isso me dá a certeza de que deixar morrer um amor de dentro de nós leva tempo e alguma insistência; requer força de vontade e muita paciência.

Não é de uma hora pra outra que para de doer. Não é instantaneamente que a gente deixa de pensar. Mas é preciso deixar o tempo fazer seu papel e a vida lapidar as desistências.

Algumas coisas morrem sem o nosso consentimento, mas ainda assim a gente sobrevive. Ainda assim a gente continua e aprende a ser feliz de um jeito novo, de uma maneira que nos surpreende pela claridade e possibilidade.

Permita-se ser feliz e autorize que sua dor seja curada. Porque a gente se apega às dores também, e se acostuma silenciosamente ao sofrimento pela falta de alguém.

Espero que minha amiga consiga realizar seu desejo. Que afugente a dor e seque o pranto. Que deixe partir o silêncio, o desalento e toda mágoa. Que se desapegue das intenções não correspondidas, das reticências indecisas, dos sonhos que desistiram de cumprir seu destino. E que, principalmente, deixe morrer o medo de descobrir o que há por trás das novas janelas que começam a se abrir. Feliz tempo novo!

Imagem de capa: Antonio Guillem / Shutterstock

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Gostei do teu texto. Muito reflexivo, maduro, centrado. Eu estou nesta situação e as recaídas me deixam pior, muito. Agora finalmente tomei a decisão de ser feliz. Sinto que não é tarefa fácil, mas o que é que é fácil não é mesmo. Feliz ano novo.

  2. Tenho acompanhado seus textos já há algum tempo. E eles têm sido uma bênção em minha vida. Mas esse texto, de forma específica, era exatamente o que precisava ler hoje! Estou como sua amiga. Tenho feito a mesma oração à Deus. A dor é intensa, mas tenho dito à mim mesma: impossível que dos mais do que já doeu.
    Obrigada por escrever para corações como o meu.

  3. Fabíola seus textos são muito bons, até mesmo para nós homens, que muitos acham que não temos sentimentos mas estão errados. Passei pela mesma situação da sua amiga, depois de 16 anos juntos. Perdi totalmente o sentido das coisas. Amei muito ela, porém doeu muito a forma como ela conduziu todo o término. Eu mesmo muitas vezes desejei acabar, mas como existia amor da minha parte acreditava que tudo poderia melhorar. Hoje tenho uma nova família, reencontrei minha primeira namorada e ela passou pela mesma situação e decidimos ficar juntos. Quando assumi meu novo relacionamento minha ex surtou e não aceitou, ai que fiquei sem entender mesmo… porémme liguei que não era amor do lado dela e sim uma posse. Bom a resposta é que pra ambos os sexos é que podemos ser feliz novamente, mas temos que pagar o preço do desconhecido.

  4. Boa noite!
    Seus escritos, seus dizeres por trás da doçura firme, das palavras que acalentam um coração e das entrelinhas que fazem a gente refletir e nos dar um cadinho de esperança pelo o que olhos lêem. Sabemos sim que tudo um dia há de passar, que o café vai esfriar e a expectativa morrer, porém essas lindas e fortes palavras que emana persistência, deixa que o nosso coração acredite e impulsione um pouquinho rumo ao caminho da esperança.
    Gosto um tantão de te ler, de ler o que teu coração permite a nos oferecer.

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