Deixa eu falar um pouco da nossa tristeza

Imagem de capa: Lena Pan, Shutterstock

A tristeza tem vida própria, não é essa a sensação que a gente tem de vez em quando? O horizonte fica longe e as pessoas – antes tão perto, se tornam ainda mais distantes do ponto central da vida, da nossa visão periférica, central, do foco da retina.

E parece que uma mão afiada entra no peito e mexe, e remexe, e abre e não fecha. Peito aberto, fraquezas à mostra que é para doer ainda mais. E você se pergunta onde estão os abraços, e questiona para onde foi o compasso que batia equilibrado e agora desandou assim.

É que a tristeza tem uma razão de ser. Sempre tem, ainda que nos seja imperceptível. Mas tem, sempre tem. E o choro vem fácil para quem tem um coração muito pequeno para comportar as mazelas do mundo.

O que dói é a saudade do que foi um dia e a falta dos dias que já não existem mais. E mais ainda… a certeza de que não teria como ser diferente, pois a vida arde mesmo.

E esse sentimento de tristeza que invade forte acaba fazendo parte da passagem toda. O percurso invisível da dor deixa marcas afiadas capazes de degolar até o tempo – esse poderoso amigo nosso.

Cabeças rolam por todo canto e partes miúdas se transformam em retalhos de cores variadas. E a gente vai costurando cada paninho desfeito da alma, juntando um no outro na espera de um novo cobertor para recostar o corpo frio.

A vida é essa corrente límpida que abre espaço para a água turva da tristeza. Acho que a gente destrói por dentro só para poder refazer tudo depois. Até lá, meu caro, vamos tocando o barquinho nos esforçando incrivelmente para não virar na primeira grande onda.

Quando estamos tristes, bem tristes mesmo, ficamos pequenos e perdidos no mar. A embarcação quase não aguenta o tranco, balança, revira a vela, o casco bate como se fosse arrebentar com tudo de uma vez só. E parece que a gente vai cair lá no fundo do fundo do oceano, perdidos sem saber se é barco ou se é balão.

Tudo bem, está tudo bem, menina. Repara o céu como suporta as tempestades mais duras e sempre volta limpinho depois. Repara o sol que vem ao amanhecer e vai embora logo após as andorinhas seguirem viagem. Repara que nem ele às vezes vem.

Só quero meu direito ao passo, seja torto, seja reto, seja andando lento nas nuvens de algodão. Quero sentir a minha tristeza profunda para que a volta por cima seja vista lá do alto, onde Deus grita e comemora cada recomeço meu.

Porque eu vim nesse mundo para recomeçar quantas vezes mais forem necessárias para estar inteira. Corações como o meu sofrem o dobro pela maldita “flor da pele”. E qualquer beliscão machuca, até o grito mais suave faz a pele arder, se doer, se rasgar.

Há de se achar espaço para tudo isso. Para a dor, a tristeza e o recomeço, esse último costuma vir acompanhado de uma porção de sorrisos que ainda precisam ser dados.

“Eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus”, toca agora no rádio, deve ser Gal Costa me dizendo para fazer silencio enquanto ela termina o refrão “Oh, minha honey baby”.

Um brinde às tristezas que temos o direito de sentir sem o peso do “juízo final”. Lá vem de novo a Gal… “Honey baby, baby, baby ah…”.

Qualquer hora o sol volta brilhante feito os meus olhos castanhos. E eu agradeço sem fim por ter exercido o meu direito ao pranto, sem problema algum em vir aqui dividir isso.

Baby, honey baby…

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Não estou muito preocupada com meus créditos, eu quero saber mesmo é do que me arrepia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.

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