Dê férias a si mesmo

Imagem de capa: Billion Photos, Shutterstock

Precisamos de férias – no trabalho, na rotina, nas obrigações – para tomar fôlego e iniciar ciclos, com corpo e mente leves e diferentes perspectivas. Devíamos fazer mais pausas em várias épocas, para desacelerar ou nos aventurar, mas aguardamos o tempo programado de sermos felizes no calendário. Janeiro é quase o mês oficial para isso. Novo ano, verão, proximidade do Carnaval… Tempo de descontrair o visual e ter coragem de experimentar novos cenários, perfumes, sabores, emoções. Natural pensar em pôr o pé na estrada.

Viajar pode nos levar mais longe do que imaginamos. Alarga horizontes e sorrisos, abrindo caminhos dentro de nós mesmos para que a gente se conheça de um jeito despojado. Viajar ensina a nos livrarmos de preconceitos, medos e vaidades, para aproveitar o que o nosso destino tem de melhor, como sempre deveríamos agir na vida. É época de esquecer-se até de noite de chinelos, roupas de banho, cabelos duros de sal ou cloro e a cara lavada, impregnando-se de cheiro de mato ou maresia.

Ainda sinto o vento e a areia batendo forte no meu rosto e o coração disparado no peito, ao despencar nas montanhas-russas naturais do Rio Grande do Norte, de onde voltei há uma semana. Eu e minha família vivemos dias de aventura chacoalhando em buggy, lancha, barco e balsas por lindas praias, dunas, falésias e rios. Aprendi com esse Brasil brasileiro onde o sotaque e tantas diferenças culturais falam alto. Foram dias alegres e eternizados na retina da memória, porém cansativos (como em toda viagem que se preza!)…

Ao fazer as malas, a gente deposita nelas expectativas e a quase obrigação de ser feliz. Na volta a bagagem sempre é mais pesada, com as lembranças maravilhosas, o que não conseguimos conhecer e as intercorrências indesejadas. É muito bom partir, mas voltar para casa ganha um estímulo especial após uma viagem, por melhor que tenha sido o hotel e o lugar aonde fomos. E aí, enquanto a gente põe as roupas para lavar, já pensa no próximo destino.

A verdade é que não é preciso pegar um ônibus ou um avião e atravessar centenas, milhares de quilômetros, para curtir merecidas férias. É provável que haja dezenas de atrações turísticas e culturais bem perto de nós, sem que tenhamos curiosidade para visitá-las. Basta vontade para explorarmos nossas cidades e seus arredores como ávidos turistas. Mas temos o hábito de nos deixar fascinar primeiramente pelo que está longe ou difícil, esquecendo locais e atitudes ao nosso alcance.

A gente também se esquece que férias são para descanso. Já parou para pensar desde quando você não faz, simplesmente, nada? Nada é modo de falar, num mundo de tantos compromissos profissionais, domésticos e sociais envoltos em estresse, agitação e modismos. Não fazer nada é fazer o que não importa aos outros, mas é tudo o que você mais quer: dormir dez horas, ficar na cama o dia inteiro lendo livros da mesa de cabeceira, refletir longamente ou fazer um spa de beleza no chuveiro. Por melhores que sejam nossas companhias, às vezes o que precisamos é nos mimar e amar.

De vez em quando, é bom vivenciar o mais absoluto ócio, o chamado ócio produtivo, daqueles que nos dá inspiração para a vida, que nos faz agir com menos condicionamentos e mais calmaria e reflexão. Investir em nosso interior, em quem de fato somos e no que queremos, significa fazermos o que mais gostamos e deixarmos de lado tudo a que nos forçamos fazer. Sem tanta pressa, sem nos envolvermos desgastadamente com questões cotidianas e aborrecimentos.

Temos a mania de achar que somente aproveitamos férias e folgas se preenchemos todas as nossas horas com viagens e lazer, voltando exaustos para o trabalho e a rotina. Algum tempo livre deve ser exatamente isso: livre. A liberdade está a nossa espera, para cantar, ler, escrever, meditar ou o que der na telha… Podemos fazer isso sozinhos, que é uma boa maneira de conhecermos a pessoa que deveria ser a nossa melhor companhia.

Para ter um novo fôlego diante da vida e ser feliz, cobre-se menos e permita-se mais. Dê férias para si mesmo!

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Nadja Bereicoa
Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás). Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia. Como diz o verso de um dos meus poemas, "Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer...".

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