Ao doce sabor dos ventos e desejos

Imagem de capa: Monika Gniot, Shutterstock

Uma solitária e inusitada flor dente-de-leão, rente à calçada, na beira do meu caminho num domingo, me fez agachar por instantes para apreciá-la, tão delicadamente instigante. Pareceu-me um chumaço ralo de algodão – frágil, não propriamente bela e talvez prestes a morrer, pensei… Nunca a tinha visto. Meus filhos, porém, a conheciam e, entusiasmados, me informaram o seu principal significado: sorte.

Falaram-me que eu deveria soprá-la fazendo um pedido, para que suas sementes se espalhassem pelo ar e o meu desejo se realizasse. Sem saber sobre suas lendas, não quis destruí-la. Preferi que um vento leve, que soprava bem naquela hora, se encarregasse desse trabalho de forma sutil e desinteressada. Então, observando a flor se desfazer, percebi como a natureza se ajudava e se recriava sozinha. E segui especialmente feliz.

Mais tarde, ao pesquisar sobre essa exótica flor, descobri fascinada o sentido máximo de renovação e esperança que ela carrega quando, aos pedaços, voa sem saber aonde vai parar, com a feliz certeza de brotar de novo, em um eterno ciclo. Em pleno auge, suas pétalas amarelas com recortes pontiagudos lembram a juba e os dentes de um poderoso leão. Mas sua exuberância, como ocorre conosco, não dura para sempre. Ela se fragiliza, fica apenas com suas sementes que mais parecem espinhos, mas, com vontade de viver, renasce onde cai. Nisso reside a sua força.

Nós também, ao longo da vida, sentimos as nossas pétalas irem embora, seja pelo curso normal e muitas vezes nada fértil dos dias, seja pelos ventos e intempéries do destino ou porque algumas pessoas as arrancam, nos ferindo. Perdemos o viço, as cores e a energia, sentindo-nos podados em nosso crescimento espiritual, com a apatia e a depressão que nos acometem até sem explicação ou com a deslealdade e a crueldade alheias despejadas em nós.

De uma hora para outra nos vemos secos, desfazendo-nos como fios ásperos de algodão, sobre nossos caules ainda que enraizados em terra produtiva. Parecemos ervas daninhas crescendo desajeitadas na concretude e aridez dos fatos, quando na verdade estamos apenas sensíveis e desnudados, feito uma frágil e ambígua flor dente-de-leão – rica em propriedades medicinais e místicas e tão desprezada, desapercebida. Mas, como ela, sempre teremos a chance de renascer, se cultivarmos em nós a imagem do que foi esplendor.

Depurando os mais íntimos sentimentos, escolhendo aquilo e aqueles que nos fazem bem ao soprar as nossas pétalas com delicadeza e as melhores intenções e, principalmente, disseminando nossas essências, voltaremos a espalhar e germinar nossas sementes. Mesmo com nossas incompletudes e em solos ariscos, poderemos nos replantar e reviver, em qualquer terreno. Como às margens das calçadas dos nossos triviais caminhos.

Da mesma forma que essa mágica e livre flor, que nos deixemos levar ao doce sabor dos ventos e das energias positivas sopradas pelos bons desejos. E que saibamos florescer no tempo certo, até quando parecer improvável ou impossível.

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Nadja Bereicoa
Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás). Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia. Como diz o verso de um dos meus poemas, "Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer...".

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