Amores com hora marcada

Imagem de capa: photoagent, Shutterstock

Ontem, fui jantar com um amigo. Uma das muitas vantagens em ter amigos homens – sem que eles tenham intenção em te levar para a cama – é que, com eles, podes desconstruir um bocadinho a mente humana no masculino. Há amigos com os quais é possível falar de coisas de mulheres, acabando por (re)criar uma sequela do sexo e a cidade, mas em versão homem-mulher. Foi, precisamente, isso que fizemos ontem. Poder jantar com alguém do sexo oposto, sem estares, constantemente, a fazer uma leitura de quais serão as reais intenções da pessoa que te acompanha, tem outro nível. Durante o jantar e entre um bom copo de vinho, quisemos saber um do outro. É isso que os amigos fazem. Querem saber como o outro está. E, mais do que saber como corre a vida, gostamos de perceber como anda o coração. Não que tenhamos quaisquer intenções de ocupá-lo, muito pelo contrário, mas no fundo é isto que move o ser humano. A busca pelo amor perfeito. E, se não puder ser perfeito, que seja amor, pelo menos. Todos temos medidas diferentes de amar ou talvez todos amemos de maneiras diferentes, mas, neste campo, todos procuramos o mesmo. Neste campo, não há sexo forte. Há apenas seres humanos que tentam encontrar um corpo que lhes assuma a alma. Porque, no fim, o que todos queremos é ter alguém para partilhar uma manta quente, num domingo frio de chuva. Mas ou o amor anda doente, ou as pessoas andam dementes. Ontem, dizia-me o meu amigo que andava cansado de coisas efémeras, rápidas, sem conteúdo. Dizia-me que, de uma forma geral, as mulheres perderam o amor-próprio. E, por muito que eu tentasse refutar os seus argumentos, a verdade é que tudo o que eu lhe ia dizendo ia caindo por terra, ao longo da noite. A noite estava por nossa conta. Não tínhamos, em nós, o peso da preocupação em saber qual o passo a dar a seguir; se estávamos a conquistar ou a ser conquistados; se íamos acabar numa cama ou se ficava para a próxima. Não. Éramos só dois amigos que, apenas por um mero acaso, tinham nascido homem e mulher.

E de resto? De resto, éramos duas pessoas com os mesmos receios, as mesmas dúvidas e com as inseguranças de cada um. Fomos semeando as palavras pelas ruas de Lisboa, num Sábado à noite. E é numa rua cheia de gente, perdidos num passeio qualquer, num Sábado qualquer, que podemos observar a cidade. Uma cidade feita de pessoas. Pessoas que sabem o que querem, como querem e a que horas querem. Pessoas que fazem momentos. Momentos cheios de coisa nenhuma. Marcamos amor para as dez. Apaixonamo-nos às onze. Esquecemos tudo à meia-noite. Já não sabemos a que sabe um bom dia no dia a seguir. A cidade estava cheia. Cheia de pessoas, que estavam cheias delas. E elas vazias de amor. Vazias daquele amor que nos faz esquecer onde estamos, que nos faz parar no tempo, que nos faz sorrir com os olhos e que nos aquece a alma. Nada disto existe na minha cidade, num sábado à noite. Existem corpos. Corpos que seduzem corpos. Corpos que só querem corpos. — Estás a ver aquela miúda, ali? Tenho-a no meu Instagram. E é assim que as coisas funcionam. Todos sabem as regras. Hoje, chamo-te amor. Amanhã, serás um estupor. Hoje, procuro-te, desesperadamente, no Facebook. Amanhã, bloqueio-te na minha vida. São likes a mais para amores a menos. Andamos todos à procura de qualquer coisa parecida ao amor, mas, se sabe a amor, fugimos desesperadamente. Chamem-lhe tudo, mas não lhe chamem amor. O amor não tem hora marcada. Não se conquista com uma boa foto no Instagram. O amor, que eriça a pele, não termina com o nascer do sol e não se limpa com um bom desmaquilhante. O amor não se reconhece pelo corpo. O amor reconhece-se pela alma. Mais uma noite que acaba na minha cidade. Mais uma noite de amores com hora marcada. De corpos que procuram corpos. De corpos que apenas desejam corpos. E, em horas onde o preconceito não tem lugar, o amor-próprio é barrado e a alma não está na guest list, resta-nos fingir amor. E nós? Nós, cansados das ruas da cidade, fizemos o caminho de volta. De volta a casa. De volta a nós. Com a certeza de que somos muito mais do que uma noite de sábado, na nossa cidade. Porque, no fim, o que continua a fazer sentido é saber que, quando te despedes de alguém, seja um amigo, um amor, ou uma alma gémea, vais ouvir genuinamente: — Diz-me alguma coisa, quando chegares a casa!

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Júlia Domingues
Júlia Domingues. 39 anos. Jurista de formação, criativa por paixão. Sou feita de gargalhada estridente talvez porque acredite que, estridente deva ser a nossa existência. Não para os outros. Para nós. Estamos começados mas não estamos acabados. E , no fim; no regresso a nós, que consigamos, serenamente, dizer: «Ousei viver!». Sou feita de sentir e o que não me cabe no peito, transpiro-o nas palavras e no desenho. Sou mulher e sou feliz.

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