A felicidade vem de dentro

Imagem de capa: Aleshyn_Andrei, Shutterstock

Mais um ano terminou. Época de checar metas atingidas, promessas não cumpridas e surpresas, boas ou más. Fazemos a retrospectiva mental de fatos pessoais marcantes: a viagem realizada, a morte de alguém querido, o início de um amor, o exercício físico adiado, o novo emprego… Muitos contabilizam o saldo da felicidade, como se esta pudesse ser pesada numa balança de prós e contras, para então ser sentida. Não raro lamentam: “Este ano não foi feliz para mim! O Ano Novo tem que ser melhor”. Mas, afinal, não somos nós que devemos ser felizes e melhores?

Colocamos o peso da felicidade sobre os fatos, os outros, os anos, esquecendo-nos de que ela deve vir leve (do contrário, é fardo) e de dentro. Ser feliz é, na maioria das vezes, um aprendizado: tirar o melhor dos momentos – alegres e tristes, especiais e banais -, tramando-os como fios de um mesmo novelo. É natural que conquistas materiais e realizações nos motivem, assim como perdas e situações difíceis nos desestabilizem. Mas estar bem, feliz, é um patamar acima de bem-estar ou adversidades. Tem a ver com a satisfação por quem nos tornamos.

Somos partes de um todo – do universo, do planeta, de uma nação – que nesse ano se mostrou difícil, por vezes cruel, com símbolos da infelicidade sem fronteiras. Nos indignamos e até choramos com o que vimos, porque nossos conscientes e inconscientes estão conectados e o sofrimento coletivo nos atinge. A hora, porém, é de analisar o que desejamos, superamos e alcançamos nos últimos doze meses, em nossa conexão interior por felicidade. Porque ser feliz é se conhecer e se gostar cada vez mais, para estar pleno de si e irradiar boas energias. Todo ano temos essa chance.

Felicidade é aceitar a transitoriedade da vida, dos momentos e das necessidades que precisamos suprir para sermos felizes a cada fase: juventude, maturidade, velhice. Somos felizes de um jeito aos vinte, trinta anos, mas seremos de outros aos quarenta, aos cinquenta e depois. Seremos felizes até o fim se entendermos que tudo passa (as piores tempestades e as mais férteis colheitas), mas poderemos seguir explorando novos horizontes e nossas potencialidades. Todos mudamos. Ainda que pouco, menos do que gostaríamos, o suficiente para sonhar outros sonhos.

Ser feliz não é sinônimo de alegria e de vida perfeita, tampouco estar triste e com problemas é o seu oposto. A felicidade verdadeira pode se revelar em miudezas e dúvidas e escapulir entre enormidades e certezas. Você pode viver sua tristeza, mas sentir-se feliz por respeitar seus momentos de dor ou reflexão e crescer com eles. Ao contrário, se descobrir imensamente infeliz vivendo entre prazer e diversão, mas caindo no vazio quando a adrenalina e a empolgação diminuem.

Há pessoas que, ao invés de descobrirem o que de fato as faz felizes, vivem sob holofotes um simulacro de felicidade, em cenários fantásticos ou alto-astral. Despencam de suas montanhas-russas emocionais com seus êxtases e depressões, porque não se permitem pensar e se depurar. Se algo lhes dilacera, ignoram que é hora de recolhimento para juntar pedaços e que a felicidade não estará em vitrines, festas ou fotos postadas. No máximo, isso causará euforia, excitação e vaidade, que inebriam mas também viciam.

Não dormimos e acordamos felizes todos os dias, mesmo com o amor ao nosso lado e a sorte nos sorrindo com frequência. Nos cansamos devido à rotina, nos decepcionamos com fatos e pessoas, nos sabotamos por falta de confiança, mas em meio a tudo isso é possível deixar a felicidade nos invadir, vivendo com simplicidade e plenitude os nossos momentos. Pense nisso durante o novo calendário e curta o chamego com companheiros e filhos, descubra novas habilidades, desfrute o prazer de sua exclusiva companhia… Há tanto a se fazer… Se houver compromisso com a felicidade, ela virá.

Se sua lista de desejos para o ano que passou ficou longe de ser realizada, ou foi sem lhe fazer feliz, é hora de rever seus itens e olhar para dentro de si. Sinta, mude, improvise. Troque a musculação por pilates, a viagem internacional por Lumiar, a profissão estressante pela arte adormecida… A felicidade pode estar fora do script, em se abrir ao imprevisível e ao não experimentado. Como tomar um delicioso banho de chuva de verão, tão desejado quando criança mas nunca permitido.

Que nossas preces para o novo ano incluam coragem e inspiração para sermos felizes, seguindo nossos melhores sentimentos e intuição. Muito além de metas.

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Nadja Bereicoa
Por destino, desejo, dom, todos os rumos de minha vida me levaram a escrever. Sou uma jornalista por vocação que tornou-se também advogada e desde criança, enquanto criava historietas, sonhava em escrever novelas e romances. Ainda não realizei esse sonho, mas há dois anos dou vazão ao meu lado escritora, expondo crônicas e poemas (muitos de décadas atrás). Desde 2014, publiquei um livro de poemas, lancei um blog de crônicas e prossigo nos caminhos da escrita criativa, cada vez mais sem amarras, sobre o que penso, sinto, observo ou invento. É a minha terapia. Como diz o verso de um dos meus poemas, "Escrevo porque é o que de melhor eu sei fazer. E, se assim não fosse, eu nunca conseguiria dizer...".

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