​O caminho de volta

Imagem de capa: Alena Ozerova, Shutterstock

Amanheci querendo ver o sol para sentir a energia que ele emana. Que junto com a minha, em uma singela alegria, faz o universo raiar. Para lá, para cá, passos andam por todo lugar, gente que caminha na direção do nada, e aqueles que já encontraram o mapa da lua. Gente da gente, que sonha com a gente, que acredita na gente, que se deixa compartilhar contente.

Amanheci querendo seguir em frente. Avante e com fé no que virá, perdoando o passando e vivendo no já. Senti uma fome de vida, dessas como há tempos não tinha. Remendei o cordão umbilical que me liga a mim mesmo, que me deixa sereno, que não mais se partirá.

Amanheci desculpando os percalços, deixando a parte ruim de lado, acreditando mais e melhor nos meus passos, que andam como quem pisa no céu. Lembrei por alguns segundos, como uma nuvem que passou num sorriso, que não preciso de motivos para agradecer.

Amanheci querendo ser e nada mais. Ser o que consegui me tornar, essa criatura doce e tão fácil de amar, que se esquece de tudo o que pode dar, de como é estrela quando deseja “star”. Lembrei-me de quando era uma criança, de como a esperança sempre foi o meu lar.

Amanheci com saudade dos que partiram, porém, veja bem, acordei na certeza de que ficaram o tempo que lhes foi permitido. Se Deus escreve reto pelas linhas mais tortas e, ainda assim, faz poema da vida, quem sou eu para insistir nas feridas, – essas paralisantes marquinhas que só abrem aquelas ruas sem saída.

Amanheci querendo apenas encontrar meu caminho de volta, tentando lembrar da minha tropa, de quem ainda caminha comigo, dos que me dão o sentido certo do tempo. Do tempo que ainda tenho, nunca do que já perdi.

Amanheci querendo saber das horas que tenho para encontrar os amigos, do barco que pego para recuperar os sorrisos que deixei para lá. Do trevo de quatro folhas que esqueci de regar. Das tantas coisas que me roubaram o riso, sei que tenho exatamente o que preciso para sobrevoar os sonhos que escrevo.

Amanheci cheio de vontade de acreditar no mundo. Ainda que aviões continuem caindo, no alto sempre haverá um passarinho que insiste em cantar, que insiste em nunca parar, dó, ré, mi, lá. Lá do lado do horizonte, onde o olhar não se esconde, onde ninguém olha sem enxergar.

Amanheci exaltando as pessoas que me colocam lá na frente, que não poupam braços para remar a favor da corrente, bem juntinho de mim. Acordei na loucura de refazer o jardim, flor por flor, extraindo os tocos de dor, focando na sementinha do amor.

Amanheci para dividir esse texto de esperança, para desfazer as velhas crenças de que não sou capaz. Aliás, amanheci só para dizer que agradeço pela sua metade me completar por inteiro. É que a vida sabe exatamente o que faz, a hora certa de dar aqueles passos para trás, e a hora certa de levantar a mão e pedir licença.

Licença, quero passar com aqueles olhos que brilham no escuro. Quero erguer os braços diante do muro, abrir espaço para você chegar mais perto. Desculpa a insegurança que por ventura me cegar, é que ainda sou criança nesse negócio de amar.

Não é que eu ame pouco, pelo contrário, é com o muito que sinto esse tanto que nem sei lidar. Quando dou um tempo de tudo, acredite, é porque não estou conseguindo chegar. Segure minha mão, pois ainda que esqueça o caminho de ida, sempre lembrarei como voltar.​

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Nossa que lindo, arrepiada e emocionada aqui, é exatamente assim que quero amanhã de sempre, gratidão Ju Farias, e parabéns pelo texto maravilhoso, quanta sensibilidade, que Deus te abençoe ?????

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