Uma carta para minha ex

Esses dias eu estava atravessando a rua, cheio de sacolas, vi alguém com o cabelo solto no vento, daquele jeito liso na raiz e cacheado nas pontas, que em você parecia propaganda de cabelo bom. Ela usava um cardigã vermelho, igual aquele seu que era quase desbotado mas fazia seu rosto ganhar uma luz nos dias mais cinzas. Eu tava ali, num cruzamento, a garota do outro lado, vários carros atravessando, eu parado, olhando pra ela, os carros passando. Você sabe que eu sou míope, que sou desengonçado e até lembrei de como você segurava forte a minha mão pra atravessar a rua, de um jeito que dizia “vem, que eu sei o caminho”. Não era você, percebi isso quando buzinaram pra mim, e lá eu, desengonçado cheio de sacolas atravessei a rua com a cara vermelha de vergonha.

Desta vez eu achei que morreria, eu juro. Mas não morri. Por isso vim te contar que ainda sou o mesmo, que durmo pouco, vejo Netflix até as cinco da manhã, as sete tomo café na padaria e trabalho o dia todo. Continuo não almoçando, mas me livrei daquela azia que me matava, parei de tomar café, tomo chocolate quente no café da manhã. Eu emagreci outros dez quilos, não como mais miojo, mas esses dias fiz uma lasanha daquelas de micro-ondas e sobrou seu pedaço. É, você já notou que faz uma falta danada, né? Fez mesmo, e eu ainda acho que vai ser difícil alguém se encaixar em tudo que a gente fazia tão bem juntos. Todo mundo me dizia: “mas vocês pareciam um casal perfeito”. E éramos sim, eu parei de tentar achar coisas ruins pra justificar e hoje eu confirmo, fomos bons juntos, os melhores juntos, deu certo pra caramba, só acabou.

Decidi te escrever essa carta, não pra dizer o quanto você faz falta, sei que depois de tanto tempo junto a gente faz falta no dia a dia, nas coisas simples que sempre fizeram tudo fazer sentido, fiz falta, eu sei. Tô aqui pra dizer, que você tinha razão. Que eu andava com a vida toda bagunçada e precisava mesmo por os pés no chão. Um dia eu achei que você era feliz comigo nas fases boas, e que nas fases ruins você queria pular do barco, evitar que no naufrágio você estivesse ali. Eu te julguei errada, oportunista e eu achava que eu é quem tinha razão. Pensei tanto tempo nisso e entendi que você estava certa, que sua felicidade individual era primordial e que eu, aprenderia a remar sozinho. Fiquei ali num destroço do titanic que foi minha vida e quase congelei, no ímpeto do desespero remei com os braços e sem saber direito pra onde ia, apenas fui.

Você tinha razão, eu sempre fui um bom namorado, mas talvez não fosse o homem da sua vida, admitir isso foi a prova da minha maturidade. Vivemos sempre, eu e você como se não houvesse amanhã, mas seu amanhã estava ali, você continua lutando por ele, meus “Amanhãs”, eram decididos só quando o dia raiava, quando o sol me cobrava outras decisões. Desabei, e ainda tem uma série de coisas que as mudanças de hoje, vão demorar tempo pra sanar do passado, mas vão garantir um futuro melhor. Você tinha razão, me deixar sozinho foi a única forma de me ensinar que eu era quem precisava fazer minha parte, cuidar do futuro, e principalmente, ser melhor pra mim, por mim. Por você eu sempre fiz tudo, não é!

Já escrevi essa carta uma centena de vezes, já apaguei o primeiro paragrafo uma outra centena. Eu poderia te ligar, te dizer tudo isso em uma mensagem, poderia até te enviar um e-mail, mandar por um pombo correio. Não seria minha cara se fosse discreto, pra dizer apenas que você sempre esteve certa, que tinha razão e que se hoje sou um homem melhor por mim, ainda devo a você. Eu preciso te contar que ainda continuo bebendo muito, esse é o próximo passo. Mas parei de encher minha cama, parei de me desperdiçar. Me pintaram errado, você me conhece melhor que ninguém, não guarde histórias erradas que sujem o que eu sempre fui pra você. Quase não falo de ti, se falo é com admiração, sou grato pelo que vivemos, jamais diria nunca pra você, mas estou contente com o futuro que está se esboçando, sigo com o coração aberto e a alma e lençóis limpos, pra sei lá, um dia quem sabe o amor pousar por aqui.

É uma carta pra dizer obrigado, pra dizer que aprendi. Pra dizer que estou bem, obrigado. Mesmo sem você perguntar. É uma carta pra dizer que você é um capítulo bonito, o mais verdadeiro que eu já escrevi. É pra guardar com carinho, e dizer com jeitinho, que em todos os meus textos ainda escrevo um pouquinho de você. No futuro, escrevo outra vez, só pra contar que deu certo e que a vida vai bem.

Imagem de capa: Alina Zenit – Mitya Ku

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Giovane Galvan

Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.

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