Santa ironia. Os retiros espirituais tão cheios e os espíritos tão vazios.

Eu acho bonito, quando chega essa época do ano, ver tanta gente nos retiros espirituais. São pessoas de todo canto, de toda crença, de todo jeito, retirando o espírito para longe dessa loucura que, quase sempre, elas mesmas ajudaram a criar. Eu acho bonito.

Deus queira que essa gente toda não seja daquela espécie que passa o ano inteiro destilando veneno, magoando, pisando, gritando, batendo, e em dezembro fica uns dias no meio do mato ouvindo as cigarras, bebendo água da moringa, comendo fruta no pé, fazendo silêncio, dormindo, caminhando descalça, vivendo no céu mas depois, com o espírito renovado, volta a fazer da vida dos outros um inferno.

Você não me leve a mal, mas de que adianta encher os retiros espirituais nessa época e seguir vazio de espírito o ano inteiro? Sei não. Eu só acho que retiro espiritual não funciona se a gente não põe o espírito para trabalhar.

Retirar o time de campo nessas horas é fácil. Duro é voltar e contribuir. Trabalhar firme, colaborar, pôr em prática o que se aprende na teoria do isolamento. Afinal, por que raio alguém faz um retiro espiritual senão para aprender com o silêncio, ouvir a sua voz interior longe do burburinho e tentar dar jeito nas coisas?

Acontece que, do jeito como tudo anda, tem gente cuja voz interior não grita outra coisa além de “volte lá e acabe com todos eles”. É triste, mas verdadeiro.

Não há retiro espiritual que dê jeito em espírito de porco. Não sozinho. Esse buraco fica mais embaixo e bem mais longe que o retiro mais afastado.

Mas a gente não pode perder a esperança. Tomara que esse ano os retiros se encham de gente e os espíritos se completem de humanidade. Talvez seja esse o espírito da coisa.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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